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A cultura da violência contra as mulheres

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“É característico do regime patriarcal, o homem fazer da mulher uma criatura tão diferente dele quanto possível. Ele, o sexo forte, ela o fraco; ele o sexo nobre, ela o belo”, escreveu Gilberto Freyre no livro Sobrados e Mucambos, retratando o papel da mulher à época da sociedade patriarcal. Como um homem de seu tempo, Freyre interpretou muito bem a realidade que atravessou o tempo e se traduz em violência física e moral contra as mulheres até os dias atuais.

A lentidão na mudança 

O Brasil mudou, mas o ranço do patriarcado continua tão vivo quanto às mortes das mulheres espancadas, violentadas e estupidamente assassinadas pelos ditos “companheiros”. Trata-se de uma continuidade histórica sem prazo de validade. Um ciclo que não se encerra.

Mesmo que diferentemente da época do Gilberto, grupos se organizem em prol da segurança da mulher e contra a violência, e de contarmos com a Lei Maria da Penha, que é o marco legal que trata o assunto e ganha corpo na vida cotidiana de milhares de mulheres que sofrem agressão física, psicológica ou sexual; sabemos que esses e outros mecanismos não são suficientes, precisamos do engajamento social, tão difícil numa sociedade cada vez mais individualista, omissa e conivente.

Caráter e masculinidade

No País, nas semanas recentes, vários são os casos de violência contra as mulheres exibidos na mídia, em que a crueldade e brutalidade revelam, além de a parcela de gente doentia, quase sem cura e com poucas chances de sobrevida saudável; histórias sofridas, divididas entre o amor e o ódio, que tiveram um triste desfecho.  A mesma mulher que pari e traz a vida é a que tem a sua ceifada, sem escolha!

A gente pensava que o tempo do patriarcado tivesse morrido no passado, acreditando que nossos homens, rapazes, jovens e cheios de vida, tivessem absorvido e respirado os ares dos novos tempos, ditos mais modernos e conscientes, e menos preconceituosos.  Por que não foi assim?

Entretanto, eles colocam tudo a perder – algumas vezes -, supostamente, em nome de uma masculinidade que deveria ser muito mais orientada pelo caráter do que pelo dito “sexo forte”, que ainda faz da mulher um produto ou objeto de consumo e descarte em via pública.

Ponto final

Ora, se a relação conjugal está ruim e houve infidelidade, que se enterre a relação e que cada um siga vivendo seu caminho. Por que o homem tem a pretensão de achar que a vida de outro ser humano lhe pertence? E que cabe a ele decidir até quando o outro deve viver?

Amar e amar

Pior que isso é justificar dizendo que matou por amor. Ora, quem ama, cuida! Quem ama se esforça para ter um relacionamento conjugal saudável! Em ver o outro feliz! Isso é amar! Por que, também, nós mulheres não conseguimos dar adeus ao primeiro sinal de destemperamento do individuo? Porque sempre acreditamos que vai melhorar, perdoamos, ou, por amor, damos uma nova chance sem refletir no que esse ato pode representar adiante.

Os números do sofrimento

Dentre várias pesquisas e estudos que apresentam dados referentes à violência contra a mulher escolhi falar do Ligue 180, pois acredito espelhar melhor a realidade, já que muitas mulheres por vergonha acabam não indo até uma delegacia prestar queixas. Nesse sentido, o 180, que é o Canal de Atendimento à mulher do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), parece facilitar a denúncia.

A abordagem sobre o Canal de Atendimento foi feita em reportagem do site do Correio Braziliense, de agosto, a qual mostra que só neste ano houve quase 80 mil relatos de violência e ainda faltam quatro meses pro ano acabar. Os casos envolvem desde violência física, com 37,3 mil relatos até cárcere privado 2,8mil, números absurdos!

Outra reportagem, agora do site da Folha de S. Paulo, aborda a brutal violência cometida às mulheres que é o estupro. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou uma média diária de 164 estupros no ano passado.

Como dito, a maioria das mulheres não registra o ocorrido, geralmente por vergonha, então se estima que o número absoluto dos estupros ultrapasse os 500 mil/ano.

Pela história afora

Num contexto macro, de acordo com os registros, desde sempre a mulher já era vista como o “sexo frágil”. Na Bíblia, há o relato sobre a passagem de uma mulher, provavelmente Maria Madalena, que quando pega em adultério, conforme a Lei da época deveria morrer por apedrejamento.

Porém, ela teve a vida poupada por Jesus Cristo, o qual – quando interpelado a resolver a situação – disse que aquele, dentre vós, não tivesse pecado, que atirasse a primeira pedra. Desnudando toda a hipocrisia daqueles ditos corretos e que, portanto, se achavam no direito de agredir moralmente e fisicamente as mulheres. Não restou um e nenhuma pedra foi lançada!

E, mesmo dois milênios depois, mulheres são apedrejadas na Arábia Saudita, Iêmem, Afeganistão, Somália, entre outros países. Quando vamos acabar com a cultura da violência contra a mulher?

Cristina Monte
Cristina Monte é jornalista, especialista em Comunicação Empresarial (Cásper Líbero), Responsabilidade Social (FUCAPI) e em Divulgação Científica em Saúde na Amazônia (FIOCRUZ-AM). Além disso, Cristina é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É articulista-convidada e colunista da Coluna Mai$ Negócio$, do Jornal do Commercio e apresenta as notícias da Coluna no AmazonPlay TV Digital. Atualmente, além dos projetos mencionados, a jornalista atua como assessora de Imprensa, palestrante e estuda o curso de Coaching.

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