Apesar de o século XXI nos apresentar tantas rupturas e nos fazer repensar o nosso papel nesse quintal global, certas coisas insistem em permanecer no tempo. É o caso da mulher que segue sendo violentada, espancada, estuprada, assassinada e subestimada. Não é legal ter que vir aqui falar isso, diante de tantos companheiros parceiros, bons, carinhosos e gentis. Contudo, não poderia deixar passar a comemoração do Dia Internacional da Mulher de mãos vazias e bico fechado.

Afinal, continuamos nas pautas dos noticiários rotineiramente, o que carrega apenas um traço positivo, já que estamos mostrando nossas caras machucadas e feridas, cutucando a sociedade, as autoridades e, por meio dessa coragem, unimos esforços pra desarticular o monstro da violência física. E se não vencemos pela força, que vençamos de outro modo.

Violência silenciosa

E se temos tantos casos de violência física contra a mulher, vou fazer um gancho e direcionar este papo a uma recente experiência, que me fez repensar muito a respeito de outra violência contra a mulher. Essa violência que me refiro não mostra as marcas das pancadas no rosto, mas – não menos doída – machuca e desfigura a nossa alma.

É a violência sutil, aquele assédio quase murmurado e silencioso que é tão invisível aos olhos nus quanto os micróbios e que nos fazem sentir menores que eles, e nós – mulheres – muitas vezes temos dificuldade em perceber, entender, aceitar e fazer algo a respeito, porque do outro lado ouvimos sempre um “você está ficando louca”, “é desequilibrada”, ou “não foi nada disso que eu disse”. Muitas vezes, essa violência surge disfarçada em religiões ou culturas que fazem da mulher um objeto de adorno de segunda mão.

Pelas bandas de Marraquexe

E esse gancho tem a ver com uma viagem que fiz na semana passada a Marraquexe, no Marrocos. Primeira vez em solo africano, de repente me vi num lugar lindo e confesso que a visita me surpreendeu positivamente. Um lugar de belezas singulares, muita história, cultura, culinária saborosa e paisagens incríveis. Claro que como mais uma turista, entre os onze milhões que visitam anualmente Marraquexe, o olhar é estreito e não condiz com a realidade do local, porém, curiosa que sou logo me colei numa paulistana que está morando lá desde 2017.

Mas a pauta com a brasileira e psicóloga Gisela Gusmão era falar sobre uma cooperativa de mulheres marroquinas (agora alguns homens começam a participar da associação), que habitam nas regiões do cultivo da argânia e que após a extração do óleo desse fruto se transforma no puríssimo óleo de argan, famoso pelas propriedades hidratantes e conhecido como o “ouro líquido de Marrocos”.  O material seria coletado para o programa Happy Hour, que apresento no canal do Amazon Play TV e Jornal do Commercio.

Mudando de rumo  

Mas, durante a entrevista percebi que o viés da conversa nos levava em outra direção, pois muito mais importante que a abordagem da inserção social feminina num sistema econômico injusto com as populações locais, sobretudo, porque Marrocos é o único local do planeta a produzir a argânia, mas empresas multinacionais compram terrenos na região do plantio, se instalam e exploram a mão de obra local (paupérrima), era falar do papel secundário da marroquina naquele ambiente. E se as multi ficam com os lucros; os marroquinos, com o cansaço; as mulheres continuam na sombra da escuridão da sua existência.

Mulheres invisíveis

Falar da mulher marroquina na paisagem social é continuar a retórica da velha submissão. Foi esse cenário que a Gisela foi desenhando e ganhou corpo. Ela me falou do papel secundário da mulher marroquina, da falta de emprego e oportunidades de trabalho, pois devido à sociedade conservadora os homens ainda são os provedores e donos do pedaço, restando às mulheres as obrigações do lar, o cuidado com as crianças, além de manterem a voz abafada e os sonhos definhados nas plantações, que não prosperam como a argânia e estão longe de alguma concretude.

A Gisela iniciou um processo de transformação quando cavoucou esse terreno social, impondo-se e fazendo com que mulheres e homens começassem a ampliar a visão além dos campos semeados, promovendo uma flexibilização na velha dinâmica familiar. Na nova configuração, a mulher passa a falar, a ser ouvida, a ter um espaço, ganha alguma autonomia e pode reescrever a sua história. Só a força de uma guerreira como a Gisela pra colocar a mão na lama e resistir ao sistema milenar mesmo com toda a pressão que sofreu. Tudo porque tinha uma cooperativa no meio do plantio.

Não será fácil, não é fácil, mas as sementes da mudança já estão germinando. A autoestima passa a enfeitar a alma da mulher marroquina, que envolta (escondida) nas vestes chamadas de kaftan (túnicas largas e cumpridas) não exalam qualquer tipo de feminilidade, vaidade ou personalidade.

Que o sonho de sermos mulheres que queremos ser seja mais forte que as violências a nós cometidas e que floresça na nossa vida assim como a argânia floresce nos campos de Marraquexe.

Cristina Monte
Cristina Monte é jornalista, especialista em Comunicação Empresarial (Cásper Líbero), Responsabilidade Social (FUCAPI) e em Divulgação Científica em Saúde na Amazônia (FIOCRUZ-AM). Além disso, Cristina é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É articulista-convidada e colunista da Coluna Mai$ Negócio$, do Jornal do Commercio e apresenta as notícias da Coluna no AmazonPlay TV Digital. Atualmente, além dos projetos mencionados, a jornalista atua como assessora de Imprensa, palestrante e estuda o curso de Coaching.

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