Conheça os investidores que fazem aportes milionários em startups

Curitiba, terça-feira, 15 de outubro de 2019, 5 horas da tarde.
Alphonse Voigt, 46, João Del Valle, 40, e Wagner Ruiz, 41, se reúnem a portas fechadas com o americano Robert Anderson, 36. Os brasileiros são sócios da fintech Ebanx, fundada em 2012. Robert representa o fundo de capital de risco FTV Capital, com sede em São Francisco. Depois de três dias (sábado e domingo incluídos) analisando contratos que chegam fácil às 500 páginas, os quatro finalmente dão fim ao acordo iniciado seis meses antes. Até lá, foram cerca de 180 horas em calls e encontros entre advogados e as partes, mais 290 horas aproximadamente em reuniões e trabalhos internos, para estratégia e due diligence — uma espécie de avaliação do risco da transação, conduzida pelos investidores.

A canetada final — um aporte milionário (de valores não revelados) na conta da startup — e o Ebanx chega a um valuation de, no mínimo, US$ 1 bilhão. Em vez de sair para comemorar, Alphonse, João e Wagner preferem tirar o dia seguinte para celebrar com os funcionários, em uma festa na sede da fintech.

Quinta-feira, 17 de outubro. E Wagner volta à realidade:
–Putz! Agora passou. Temos de continuar trabalhando e entregando…

Vida normal no escritório do Ebanx. “O mais difícil de chegar aqui é manter a posição”, diz ele.

Dois anos atrás, a startup passou por uma situação semelhante, também com a FTV Capital. Em um 12 de dezembro, quente para as médias curitibanas, a startup especializada em processamento de pagamentos cross border para e-commerces como AirbnbAliExpressSpotify e Uber recebia seu primeiro e único aporte até então — US$ 30 milhões, para expansão global do negócio. Naquela ocasião, a conquista foi celebrada pelos fundadores com drinques, em um restaurante da capital paranaense. “Houve um amadurecimento da empresa entre o primeiro aporte e o segundo”, diz Wagner.

A serenidade vem da relação muito bem consolidada entre a startup e o fundo. As primeiras conversas datam de 2012, quando os empresários de Curitiba entraram para a lista de empreendedores Endeavor. Foram cinco anos para o primeiro deal. Nesse período, o Ebanx foi procurado por diversos investidores, mas faltava algo para o match perfeito. Ao longo desse tempo, Alphonse, João e Wagner cultivaram a certeza de que a parceria com um fundo deveria trazer mais do que dinheiro. “O investidor tem de ter ‘fit cultural’ com o negócio”, diz Wagner. “E é preciso sempre manter os pés no chão.”

A sintonia com a FTV Capital foi imediata. Em 2017, o fundo começava a prospectar oportunidades no mercado latino-americano, de olho nas startups de comércio eletrônico. “A América Latina é a fronteira final do e-commerce, e o Ebanx mostrou dominar as excentricidades do mercado local e, ao mesmo tempo, oferecer um produto global voltado para a experiência de seus consumidores”, conta Robert, em entrevista a Época NEGÓCIOS. “Foi isso que nos chamou a atenção.” E também um modelo de negócios forte, consistente e lucrativo, além de um time eficiente e uma plataforma de alta qualidade. “Particularmente, o Brasil carrega características próprias que os empreendedores locais conhecem melhor do que ninguém. Não são ‘gringos’ tentando resolver problemas brasileiros.”

Entre 2016 e 2017, o Ebanx iniciou as operações no México, Argentina, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Chile. De acordo com a companhia, mais de 50 milhões de latino-americanos já acessaram serviços e produtos globais com auxílio da startup. Com a expansão, os investidores vieram sedentos — e os três sócios se viram “encurralados” por propostas. “Por fazer parte do nosso board, a FTV sempre soube das propostas e nunca nos cerceou nada”, lembra Wagner. Os americanos decidiram então fazer um aporte de follow on. O que, segundo Robert, aconteceu devido à combinação entre as expectativas cumpridas e as oportunidade de crescimento do negócio. “Adoramos aprofundar nossas relações com as iniciativas mais bem-sucedidas”, diz o executivo americano. “O investimento é uma ótima maneira de acelerar as conquistas do Ebanx.”

Com o novo aporte, a companhia espera expandir as operações e ganhar o mundo. A meta é transformar a fintech em líder de pagamento cross border. “Não poderíamos estar mais orgulhosos e animados. Eles fizeram um grande trabalho e o crédito é todo deles”, elogia Robert. “Vamos seguir trabalhando, porque ainda há muito a ser feito. Temos uma oportunidade de mercado incrível na mão e queremos aproveitá-la.”

O Ebanx é o sócio brasileiro mais recente do seletíssimo clube das empresas unicórnio — as startups que, com poucos anos de estrada, alcançam valuation de US$ 1 bilhão ou mais. A associação dessas companhias com a criatura mitológica foi estabelecida pela americana Aileen Lee, fundadora da Cowboy Ventures. No artigo “Welcome to the Unicorn Club: Learning from Billion-Dollar Startups”, divulgado na plataforma TechCrunch, em novembro de 2013, ela se propõe a responder duas perguntas: qual seria a probabilidade de uma startup obter uma avaliação de bilhões de dólares e o que seria possível aprender com os “mega-hits” do início dos anos 2000, como Facebook, LinkedIn e Workday.

Aileen e sua equipe mergulharam nos relatórios financeiros das empresas de tecnologia, fundadas a partir de 2003, nos Estados Unidos. Naquela época, apenas uma em 1.538 startups (0,7% delas) preenchia os requisitos estabelecidos pela executiva para entrar no mundo encantado dos unicórnios — tão raras e difíceis de alcançar quanto o cavalo com um chifre na testa, que, segundo o bestiário medieval Physiologus, só poderia ser capturado por mulheres virgens.

Desde então, no mundo real da economia 4.0, a manada de unicórnios só faz crescer. Até o final de setembro, ela somava 403 companhias, segundo a consultoria americana CB Insights. Uma série de fatores leva a esse aumento. Em especial, a liquidez do mercado e a proliferação de projetos de altíssima qualidade.  Se antes uma startup americana levava, em média, 7,5 anos para alcançar o primeiro bilhão de dólares, hoje chega ao mesmo patamar em seis anos. No Brasil, esse intervalo varia de seis a oito anos.

Nosso primeiro unicórnio nasceu em janeiro de 2018, com a compra, por US$ 300 milhões, da 99 pela chinesa Didi Chuxing, a maior plataforma móvel de transporte do mundo. Em março foi a vez da fintech Nubank estrear no cenário internacional. Com a chegada do Ebanx ao clube, os unicórnios brasileiros, até o final de outubro de 2019, eram nove. Completavam a lista a Arco Educação, Movile, Stone, Gympass, Loggi e QuintoAndar (veja quadros nesta matéria). Em dezembro, foi a vez da empresa de games Wildlife chegar ao clube, com avaliação de US$ 1,3 bilhão. Mais recentemente, a Loft recebeu investimento de US$ 175 milhões e se tornou o 11º unicórnio brasileiro.

O encanto despertado pelos unicórnios atiça a curiosidade em torno de seus investidores. Afinal, quem faz aportes milionários em startups que não passam de ideias promissoras à espera de uma execução bem-sucedida? Na imensa maioria dos casos, eles são da indústria de capital de risco (venture capital ou, simplesmente, VC). O bolso é farto e coragem não lhes falta. Sem medo de errar, não apostam em empresas saudáveis e bem-sucedidas e, sim, se arriscam com as emergentes — em várias ao mesmo tempo. Os capitalistas de risco sabem que a maioria delas não vingará; mas sabem também que o sucesso de poucas compensa o fracasso de muitas. Faz parte do jogo na indústria de VC. A venda da 99 para a Didi, por exemplo, rendeu a quem apostou nela um retorno até 60 vezes maior do que o montante aportado.

Segundo levantamento da CB Insights, entre 2 mil investidores, apenas 28% ajudaram a criar unicórnios. Descobrir o next big thing não é tarefa fácil — muito menos um fim por si só, na cartilha dos donos do dinheiro. É virtualmente impossível, nos estágios iniciais de vida dos pequenos negócios, descobrir quem se tornará o próximo unicórnio. A indústria de capital de risco, porém, trabalha com uma série de técnicas e métricas que buscam minimizar erros e maximizar a probabilidade de acertos.

Por trás da voracidade dos investidores de VC há um trabalho incansável de prospecção e análise de milhares de planos de negócios anualmente. O filtro, que começa na investigação e culmina no investimento final (o deal flow, no jargão do mercado), é replicado quase como um padrão pelos gestores de fundos e se apoia em um tripé que inclui uma análise minuciosa dos fundadores, do tamanho do mercado a ser desbravado e do produto ou serviço a ser lançado (seu grau de disrupção e sua vantagem competitiva), bem como a “dor” que a startup se dispõe a resolver.

Desde a faculdade de engenharia na Universidade Stanford, no início dos anos 2000, o colombiano David Vélez, 37, tinha o desejo de empreender. Ao conhecer o Brasil, encontrou na burocracia, morosidade e altos custos do sistema bancário daqui a inspiração para seu negócio — transformar a indústria de serviços financeiros com a oferta de tecnologia intensiva e um cartão de crédito sem anuidade. “Não hesitamos nem um segundo em investir nele”, lembra o argentino Hernan Kazah, 48, cofundador da Kaszek Ventures, o maior fundo da América Latina. “Imediatamente, enxergamos o potencial daquilo que ele estava tentando construir, além da absoluta confiança em sua liderança, determinação e capacidade.”

Uma planilha de PowerPoint, algumas reuniões em São Paulo, outras em Buenos Aires… Menos de dois meses de negociações, US$ 1 milhão da Kaszek, outro milhão da americana Sequoia, gigante do capital de risco… E, em maio, em uma pequena casa no bairro paulistano do Itaim Bibi, nasceu o Nubank. Com 12 milhões de clientes, em julho de 2019, a empresa atingiu valor de mercado de US$ 10 bilhões, conforme avaliação do The Wall Street Journal. “Sempre acreditamos que a empresa tinha o potencial de chegar a um valuation bilionário”, atesta Hernan. Não só chegou como foi além e subiu um degrau no reino dos unicórnios. Decacórnios como o Nubank há apenas outros cinco no mundo, segundo a CB Insights. No total, o fundo argentino fez quatro aportes,  somando US$ 15 milhões.

David e Hernan eram conhecidos antigos. Era 2007, e o argentino preparava o IPO do MercadoLivre, e-commerce fundado, oito anos antes, por ele, Nicolas Szekasy e Marcos Galperin. A empresa tinha como “investidores âncora” dois pesos-pesados globais, as americanas General Atlantic e Tiger Global Management. Um time da General Atlantic foi a Buenos Aires para uma semana de due diligence. Um dos integrantes da comitiva era David, associado do fundo. Teve início ali um “relacionamento de respeito e confiança mútuos”, como define o investidor Hernan.

Em 2011, depois de sair do MercadoLivre, ele fundou, ao lado de Nicolas, a Kaszek Ventures. Até agora, o fundo captou cerca de US$ 1 bilhão e investiu em 70 companhias. No portfólio da empresa constam outros três unicórnios brasileiros — Gympass, Loggi e QuintoAndar.

Em um investimento early stage, a régua para os fundadores está cada vez mais alta. “Nosso mantra é o empreendedor”, resume Anderson Thees, 46, sócio da Redpoint eventures. O raciocínio é simples: em um estágio de vida em que levanta capital semente ou participa de uma rodada série A, a startup ainda poderá mudar materialmente o produto ou serviço (“pivotar”, em outro termo do setor), transformar o modelo de negócios ou alterar a forma de monetização.

A capacidade dos empreendedores em levar adiante uma ideia (a original ou uma nova), entretanto, é o fator de sucesso predominante na história dos unicórnios. “Se existe um denominador comum entre os fundadores de unicórnios é que o time inicial era espetacular. Tanto na Gympass quanto no Rappi, identificamos o comprometimento muito claro dos fundadores em relação à construção de uma empresa grande, dentro de um mercado também muito grande”, lembra Anderson.

Com US$ 300 milhões sob gestão e investimento em mais de 30 empresas, a Redpoint eventures, fundada em 2009 nos Estados Unidos e com operações no Brasil desde 2012, tem no portfólio a Gympass e a colombiana Rappi — e nomes cotados a ingressar nesse time nos próximos meses, como a Creditas. Anualmente, a firma avalia entre 1,5 mil e 2 mil projetos. No fim das contas, entretanto, apenas uma em cada 250 recebe um cheque cujo valor varia de US$ 100 mil a US$ 10 milhões.

O processo de análise para um investimento seed não costuma ser longo. A Gympass e seu fundador, César Carvalho, por exemplo, foram recomendados por um empreendedor que já havia recebido investimento da Redpoint. “Fizemos cinco reuniões para entender a visão dos founders e um único encontro com o nosso comitê de investimentos. A decisão em investir foi consensual”, lembra Anderson. O aporte foi anunciado em abril de 2013.

O caso da colombiana Rappi foi semelhante, porém a indicação do fundador, Simón Borrero, e de seus sócios partiu de um coinvestidor que Anderson conhecia há mais de dez anos. Foram necessários poucos encontros com Simón e alguns dos principais coinvestidores da companhia antes de o martelo ser batido. “Na época em que aprovamos o investimento, em maio de 2016, eu estava na Califórnia”, diz. “Aprovamos o aporte uma única reunião do time.”

Ao avaliar os empreendedores, os investidores se apoiam na montagem de perfis técnicos e psicológicos, em uma estratégia que se assemelha à dos headhunters. São avaliados, entre outros pontos, o histórico deles (onde estudaram, o currículo profissional e as experiências empreendedoras passadas), seu networking, como se relacionam com sócios, investidores e funcionários, o negócio que pretendem construir e como se comportam em situações de pressão.

A resiliência é um atributo valioso para entender como o empreendedor lida com períodos de vacas magras ou quando é necessário demitir funcionários. “Em momentos de pressão, ele precisa manter a calma, ouvindo a opinião de seus cofundadores e investidores, a fim de definir uma estratégia clara e eficiente de ação para determinado problema”, diz o executivo da Redpoint eventures.

Na maioria dos casos, o relacionamento dos fundos com as startups costuma ter início muito tempo antes da assinatura do cheque — e é comum a troca de figurinhas de investidores com pares que participaram de rodadas anteriores para buscar referências e traçar esse histórico. O relacionamento entre a Kaszek Ventures e a plataforma imobiliária QuintoAndar, oitavo integrante do time de unicórnios brasileiros, é um exemplo de flerte que terminou em namoro. “Conhecemos o time do QuintoAndar em junho de 2013 por causa de um contato em comum. Mantivemos conversas constantes e ficamos impressionados com o talento do Gabriel [Braga] e do André [Penha]”, conta Hernan. “Isso facilitou quando decidimos investir na companhia, em 2015.”

O tamanho e o potencial do mercado brasileiro foram as razões que levaram o Valor Capital Group, firma fundada em 2011 por Clifford Sobel, ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, e Scott Sobel, a investir nos unicórnios Stone e Gympass quando elas ainda engatinhavam no ecossistema das startups brasileiras. Com uma estratégia de investimentos cross border (Estados Unidos e Brasil), a Valor Capital tem 42 empresas no portfólio e sete unicórnios. No Brasil, investe majoritariamente em estágio semente (seed e série A), com aportes que chegam a US$ 7 milhões.

O investimento na Stone ocorreu em 2014, mas Michael  Nicklas, 52, sócio da Valor Capital, já conhecia o fundador, André Street, de longa data, quando o empreendedor estava à frente da Braspag, empresa do grupo Cielo. “Apresentei-o para o Clifford e o Scott e a empatia foi imediata, pois todos são empreendedores”, conta. A negociação foi rápida: em menos de dois meses o deal, uma captação série B, foi fechado, com reuniões no Rio de Janeiro e em Nova York. Na visão dos sócios da Valor Capital, a Stone tinha potencial de se tornar um unicórnio por causa do tamanho do setor de pagamentos no Brasil. “À época, Rede e Cielo detinham 80% do mercado, e muita gente dizia que a Stone poderia ser esmagada. Mas enxergamos o contrário”, conta Michael. “Cada percentual desse mercado vale R$ 1 bilhão”, completa. A aposta foi certeira: em outubro de 2018, a Stone levantou US$ 1,5 bilhão em seu IPO, na Nasdaq.

As conversas com a Gympass, por sua vez, começaram quando seus fundadores (além de César Carvalho, João Thayro e Vinícius Ferrani) deixaram os respectivos programas de MBA nos Estados Unidos e começaram a tocar a empresa no Brasil. Foi o momento também em que a startup “pivotou” do modelo B2C para B2B. O que atraiu a Valor Capital foi justamente o modelo de negócios inovador. Em um mercado fragmentado como o Brasil, com estimados 30 mil estabelecimentos, investir em uma startup que oferece acesso a diferentes academias parecia promissor.

Foram cinco reuniões em um intervalo de dois meses. A Gympass foi uma das primeiras apostas da Valor Capital — um investimento seed em 2013, um série A em janeiro de 2014 e, mais recentemente, aportes séries B, C e D. “Os fundadores são muito racionais, têm capacidade de análise bem apurada, fria e lógica. Gostamos da forma como olhavam o mercado e podíamos ver como levariam esse modelo para o mundo”, diz Michael. “A decisão de investimento foi unânime entre os sócios da Valor Capital Group.”

A prospecção criteriosa de uma startup baseada no tripé fundadores, produto ou serviço, e tamanho de mercado  aumenta as chances de sucesso na busca pelos próximos unicórnios. Mas em um investimento em early stage, não há garantias. “Ainda que todos os olhos estejam voltados para o time, os produtos e o tamanho do mercado, nessa fase a análise principal recai mesmo sobre a qualidade dos empreendedores”, diz Bedy Yang, 42, sócia da 500 Startups. Fundada em 2010 e baseada no Vale do Silício, a empresa tem no portfólio 2 mil investidas (44 brasileiras) e dez unicórnios globais. A firma deve ganhar sua primeira figura mitológica no Brasil nos próximos meses, com o provável ingresso da plataforma de compra e venda de imóveis VivaReal ao time do bilhão.

O contato de Bedy com os fundadores do VivaReal começou no início da década, antes mesmo de seu ingresso na 500 Startups. A investidora havia montado uma organização chamada Brazil Innovators, que conectava a nata dos empreendedores locais com o ecossistema do Vale do Silício. “Conheci os fundadores do VivaReal e eles me pediram ajuda para captar recursos no Vale. A 500 Startups se interessou pela história”, conta Bedy. “Havia ali a união de um ótimo time, com um modelo de negócios já testado no exterior e um mercado promissor.”

Para maximizar a probabilidade de criação de unicórnios, o funil dos fundos ganha sofisticação. A 500 Startups, por exemplo, avalia mais de 10 mil negócios e investe em menos de 2% deles. As principais dúvidas de um investidor em seed e venture capital estão ligadas aos riscos de aportar dinheiro muito cedo: além do perfil dos fundadores, do modelo de negócio e do potencial de mercado, a estrutura societária também é avaliada. “A preocupação é com a possibilidade de a startup ter muitos investidores e a fatia dos fundadores ficar muito diluída, o que pode ser considerado um risco de eles não continuarem motivados”, diz Bedy.

O perfil do fundador, por sua vez, pode servir tanto como um fator de atração quanto de repulsa. Falta de foco, pouca capacidade de execução, inflexibilidade ou falta de dedicação de 100% do tempo ao negócio são alguns dos fatores que afugentam os investidores. “Certa vez, durante um pitch, um fundador falou sobre o modelo de helicóptero que ele pretendia comprar com o dinheiro do investimento”, lembra Hernan, da Kaszek Ventures. “Outro disse que só largaria o emprego depois de receber o investimento e garantir um salário similar ao que tinha na época.” Falta evidente de comprometimento.

O estudo “Corrida dos Unicórnios 2019”, produzido pelo hub de empreendedorismo Distrito, mostra, no entanto, que os fundadores das startups com valuation bilionário no Brasil estão, em geral, bem preparados. Uma das descobertas enterra o mito do gênio solitário. Na média, os unicórnios nacionais possuem 2,6 fundadores. O senso comum de que as startups de sucesso sejam crias de adolescentes que largaram os estudos para empreender na garagem de casa também é clichê. A média de idade dos empreendedores quando a startup vira unicórnio é de 36,1 anos — e 75% são pós-graduados ou possuem especialização em administração de empresas. Um cenário que, sem dúvida, facilita a vida dos investidores. “Há um evidente aumento de capacitação dos fundadores”, diz Gustavo Araújo, cofundador da Distrito. “São pessoas qualificadas que estavam em bancos, consultorias e multinacionais, com MBA e conexão com universidades internacionais, como Harvard e Stanford. E que conheciam muito de seus mercados e decidiram empreender para resolver ineficiências.”

Até agora, os unicórnios brasileiros têm feito bonito lá fora. A Stone captou US$ 1,5 bilhão em seu IPO na Nasdaq, em outubro de 2018. O Nubank gera caixa operacional desde 2017 e expandiu as operações para Argentina e México. A Gympass já esticou os tentáculos para 14 países, incluindo Estados Unidos e Reino Unido. A Loggi anunciou, em outubro de 2019, a expansão internacional, a partir de Portugal. “As inovações desenvolvidas pelas startups no Brasil têm aderência no resto do mundo”, diz Michael, da Valor Capital. Ao que tudo indica, o número de startups latinas, sobretudo as brasileiras avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, deve crescer. Por enquanto, são nove as aspirantes a unicórnio. Entre elas, Neoway, Cargo X, Neon e Creditas.

Em ebulição, o ecossistema brasileiro resultou em uma situação sui generis. Com 12,7 mil startups em operação, segundo a associação do setor, o país já tem mais unicórnios do que Israel, conhecido como a startup nation, com 6,5 mil dessas empresas, e cinco bilionárias. Há uma explicação para o fenômeno. Na área de tecnologia, escalabilidade é um fator fundamental para o sucesso de uma startup e joga a favor do Brasil.

A comparação com Israel é novamente sintomática. Com uma população de 8,7 milhões de habitantes, as startups de lá precisam prospectar mercados internacionais, sobretudo o europeu e o americano para que tenham alguma chance de alçar o patamar de criatura lendária. O Brasil, com uma população de 209,3 milhões de pessoas e uma economia cercada de ineficiências, permite aos unicórnios crescer e se desenvolver em terras brasileiras — e, a depender do negócio proposto, ganhar o mundo.

Os bons resultados alcançados por nossos unicórnios despertam a atenção dos investidores globais. Dinheiro parece não ser problema. Um estudo da Associação Latino-americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca, na sigla em inglês) revela o tamanho do apetite deles. Em 2018, os fundos de capital de risco apostaram US$ 1,3 bilhão em startups brasileiras — volume 51% maior ao de 2017. Esse montante representa 65% de tudo o que foi aplicado na América Latina, no mesmo período.

Operando há menos de seis meses, o SoftBank Innovation Fund, do conglomerado japonês de Masayoshi Son, deve turbinar ainda mais o mercado latino-americano, especialmente o brasileiro. Em março, o grupo anunciou um fundo de US$ 5 bilhões para startups da região. Em 23 de outubro, por exemplo, a startup curitibana Olist comunicou ter recebido um aporte de R$ 190 milhões dos japoneses — o maior investimento recebido pela empresa desde sua fundação, em 2015. “Não vamos investir especificamente em tecnologia, mas em quem a usa da melhor forma”, disse o boliviano Marcelo Claure, responsável pelo projeto do SoftBank na região, em entrevista exclusiva ao site de Época NEGÓCIOS. A Olist leva produtos de pequenas e médias empresas do mundo físico para grandes marketplaces, como Amazon e Mercado Livre, entre outros, e faz a ponte com os consumidores. Não é a primeira vez dos japoneses na América Latina. Com o Vision Fund, criado em 2016, o grupo já investiu US$ 1 bilhão por aqui. No portfólio deles estão Rappi, Loggi, Gympass e Creditas, entre as principais. Ao que tudo indica, a história dos unicórnios latinos deve ganhar novos capítulos em breve.

O excesso de liquidez na indústria de risco global e o número crescente de unicórnios levou especialistas como o investidor e economista William H. Janeway a soar o alerta para uma possível bolha no setor. Para ele, muitas empresas bilionárias jamais serão capazes de se manter com as próprias pernas e usam as injeções de capital como muleta antes do fracasso inevitável. O fiasco da tentativa de IPO da WeWork e a decepção com a abertura de capital da Lyft e da Uber mostram que é preciso no mínimo cautela.

Já em 2017, no artigo “Squaring Venture Capital Valuations with Reality”, publicado no Journal of Financial Economics, os economistas William Gornall e Ilya A. Strebulaev, pesquisadores do National Bureau of Economic Research, alertavam para um possível exagero na avaliação dos unicórnios. Eles estudaram 135 startups bilionárias — Uber, Lyft, Airbnb e WeWork, entre elas. Todas, segundo William e Ilya, estavam supervalorizadas em, no mínimo, 50%. Delas, quase metade deveria perder o status de criaturas mitológicas. A lógica é simples. Uma empresa de capital fechado tem seu valor de mercado avaliado pelo preço que os investidores pagam para ter uma participação nela. Quando um unicórnio abre o capital, ele tem de se adequar às exigências e necessidades do mundo real. “Diferentemente das empresas públicas, que geralmente têm uma única classe de ações ordinárias, as companhias lastreadas em VC criam uma nova classe de ações a cada 12 a 24 meses”, lê-se no trabalho de William e Ilya. “O unicórnio médio em nossa amostra possui oito classes de ações.” Em meio às turbulências enfrentadas recentemente pelas bilionárias mais imponentes, o modelo de VC é questionado por empreendedores e investidores, como o movimento Zebras Unite (leia entrevista nesta edição). Sob o argumento de que essa estrutura de negócios contempla um número muito restrito de startups, eles pedem doses de realidade no vale encantado dos unicórnios.

TIGER GLOBAL MANAGEMENT
Fundação: 2011
Origem: EUA
Fundador: Chase Coleman III
Número de unicórnios: 42
Principais investimentos: Uber, Airbnb e Facebook
Avaliação acumulada: US$ 269 bilhões

TENCENT HOLDINGS
Fundação: 1998
Origem: China
Fundadores: Ma Huateng e Zhang Zhidong
Número de unicórnios: 40
Principais investimentos: Gojek, Ubtech e Ola
Avaliação acumulada: US$ 177 bilhões

SOFTBANK
Fundação: 1986
Origem: Japão
Fundador: Masayoshi Son
Número de unicórnios: 38
Principais investimentos: WeWork, Slack e Uber
Avaliação acumulada:
US$ 389 bilhões

SEQUOIA CAPITAL CHINA
Fundação: 2005
Origem: China
Fundador: Neil Shen
Número de unicórnios: 35
Principais investimentos: Didi, Easyhome e Bitmain
Avaliação acumulada: US$ 192 bilhões

SEQUOIA CAPITAL 
Fundação: 1972
Origem: Estados Unidos
Fundador: Donald Valentine
Número de unicórnios: 33
Principais investimentos: Uber, Airbnb e Stripe
Avaliação acumulada: US$ 208 bilhões

KLEINER PERKINS
Fundação: 1972
Origem: EUA
Fundadores: Tom Perkins e Eugene Kleiner
Número de unicórnios: 30
Principais investimentos: Stripe, DoorDash e Airbnb
Avaliação acumulada: US$ 218 bilhões

DST GLOBAL
Fundação: 2009
Origem: Hong Kong
Fundador: Yuri Milner
Número de unicórnios: 29
Principais investimentos: Airbnb e Stripe
Avaliação acumulada: US$ 139 bilhões

FIDELITY INVESTMENTS
Fundação: 1946
Origem: Estados Unidos
Fundador: Edward Johnson II
Número de unicórnios: 28
Principais investimentos: Uber, Airbnb, We e SpaceX
Avaliação acumulada: US$ 231 bilhões

ANDREESSEN HOWOROWITZ
Fundação: 2009
Origem: Estados Unidos
Fundadores: Marc Andreessen e Ben Horowitz
Número de unicórnios: 28
Principais investimentos: Airbnb e Stripe
Avaliação acumulada: US$ 134 bilhões

WELLINGTON MANAGEMENT
Fundação: 1928
Origem: Estados Unidos
Fundador: Walter Morgan
Número de unicórnios: 26
Principais investimentos: Uber, Airbnb e We
Avaliação acumulada: US$ 226 bilhões

BYTEDANCE
Valor: US$ 75 bilhões
País: China
Área de atuação: Inteligência artificial
Fundador: Yiming Zhang
Principais investidores: Sequoia Capital China, SIG Asia Investments, Sina Weibo, SoftBank Group
Fundação: Março de 2012
Unicórnio desde: Abril de 2017

DIDI CHUXING
Valor: US$ 56 bilhões
País: China
Área de atuação: Transporte
Fundadores: Cheng Wei e Bo Zhang
Principais investidores: Matrix Partners, Tiger Global Management, SoftBank Corp.
Fundação: Setembro de 2012
Unicórnio desde: Dezembro de 2014

JUUL Labs
Valor: US$ 50 bilhões
País: Estados Unidos
Área de atuação: Cigarros eletrônicos
Fundadores: Kevin Burns, Tim Danaher, James Monsees e Adam Bowen
Principal investidor: Tiger Global Management
Fundação: Maio de 2015
Unicórnio desde: Dezembro de 2017

WE WORK
Valor: US$ 47 bilhões
País: Estados Unidos
Área de atuação: Espaços de trabalho compartilhados
Fundadores: Adam Neumann, Miguel McKelvey e Rebekah Neumann
Principais investidores: T. Rowe Price, Benchmark Capital, SoftBank Group
Fundação: 2010
Unicórnio desde: Fevereiro de 2014

SPACE X
Valor: US$ 33,3 bilhões
País: Estados Unidos
Área de atuação: Sistemas aeroespaciais e de serviços de transporte espacial
Fundador: Elon Musk
Principais investidores: Founders Fund, Draper Fisher Jurvetson, Rothenberg Ventures
Fundação: Março de 2002
Unicórnio desde: Dezembro de 2012

OS BRASILEIROS*

999
Valuation: US$ 1 bilhão
Área de atuação: Mobilidade urbana
Fundadores: Paulo Veras, Renato Freitas e Ariel Lambrecht
Principais investidores: Didi Chuxing, SoftBank, Tiger Global, Monashees e Qualcomm Ventures
Fundação: 2012
Unicórnio desde: Janeiro de 2018

NUBANK
Valuation: US$ 10 bilhões
Área de atuação: Serviços financeiros
Fundadores: David Vélez, Edward Wible e Cristina Junqueira
Principais investidores: Sequoia Capital, Tiger Global Management, Kaszek Ventures e QED Investors
Fundação: 2013
Unicórnio desde: Março de 2018

ARCO EDUCAÇÃO
Valuation: US$ 2,4 bilhões
Área de atuação: Educação
Fundadores: Ari de Sá Neto e Oto de Sá Cavalcante
Principais investidores: General Atlantic
Fundação: 2006
Unicórnio desde: Setembro de 2018

MOVILE (iFood)
Valuation: US$ 1 bilhão
Área de atuação: Alimentação
Fundadores: Fabricio Bloisi e Eduardo Henrique
Principais investidores: Naspers e Innova Capital
Fundação: 1998
Unicórnio desde: Novembro de 2018

STONE
Valuation: US$ 11 bilhões
Área de atuação: Meios de pagamentos
Fundadores: André Street e Eduardo Pontes
Principais investidores: Tiger Global Management, Alibaba e Berkshire Hathaway
Fundação: 2012
Unicórnio desde: Dezembro de 2018

GYMPASS
Valuation: US$ 1,1 bilhão
Área de atuação: Saúde e bem-estar
Fundadores: Vinicius Ferriani, César Carvalho e João Thayro
Principais investidores: SoftBank, General Atlantic e Valor Capital Group
Fundação: 2012
Unicórnio desde: Janeiro de 2019

LOGGI
Valuation: US$ 1 bilhão
Área de atuação: Logística
Fundadores: Fabien Mendez e Arthur Debert
Principais investidores: SoftBank, Microsoft, Dragoneer Investment Group e Kaszek Ventures
Fundação: 2013
Unicórnio desde: Junho de 2019

QUINTOANDAR
Valuation: US$ 1 bilhão
Área de atuação: Segmento imobiliário
Fundadores: Gabriel Braga e André Penha
Principais investidores: SoftBank, Kaszek Ventures e Dragoneer Investment Group
Fundação: 2012
Unicórnio desde: Setembro de 2019

EBANX
Valuation: US$ 1 bilhão
Fundadores: Alphonse Voigt, João Del Valle e Wagner Ruiz
Principal investidor: FTV Capital
Fundação: 2012
Unicórnio desde: Outubro de 2019

Fonte: Época Negócios

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui