Na próxima terça-feira, dia 19 de novembro, será comemorado o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino. Mas ainda são muitos os desafios enfrentados pelas mulheres na hora de levar um negócio adiante. Os obstáculos vão desde a dificuldade de elas se verem como empreendedoras até a falta de capacitação para lidar com a gestão financeira da empresa, por exemplo. Por outro lado, assim como em outros setores em que a presença masculina é dominante, elas têm ocupado cada vez mais espaço, dispostas a investir e crescer.

— O que nos direciona a empreender é nossa capacidade de sonhar. É importante as mulheres reconhecerem sua posição e darem voz às suas necessidades — disse a Claudia Politanski, vice-presidente do Itaú Unibanco e da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), no Fórum Itaú Mulher Empreendedora, realizado na sexta-feira passada, em São Paulo.

No Brasil, as mulheres são maioria entre os empreendedores em estágio inicial, mas minoria em negócios estabelecidos, aposta pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM 2017). De acordo com Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais do Itaú Unibanco, isso ocorre por conta de uma série de desafios enfrentados pelas empreendedoras, entre eles, a dificuldade de obter crédito e financiamento.

— Há alguns anos, olhamos para o nosso segmento de Pessoa Jurídica, e as empresas lideradas por mulheres eram as que tinham o menor faturamento, as que menos pediam crédito, e as que mais tinham o crédito negado. É preciso ter um olhar afirmativo, porque, se não houver um esforço, as mulheres não chegam ao segmento de médias e grandes empresas — pondera.

Fabiana Salles, executiva-chefe da Gesto, empresa de gestão de risco de saúde, diz que a resistência ao risco é outro obstáculo ao crescimento feminino. Ela levou 20 anos para fazer seu negócio deslanchar, depois de criar diversas empresas diferentes. Hoje, a Gesto é considerada pela Endeavor, organização de apoio ao empreendedorismo, um negócio de alto impacto.

— Comecei a me questionar por que há menos mulheres nos negócios de alto impacto. Percebi que a diferença entre a educação de mulheres e dos homens é em relação à tomada de risco. O menino, você deixa brincar, cair, mas à menina, você fala para tomar cuidado, que vai se machucar. E como a gente faz para pegar o dinheiro dos outros e sair gastando em um negócio sem saber se vai dar certo, se a gente não treinou? É um risco calculado, mas é possível treinar essa tomada de risco — garante.

Inscrições em programa de aceleração

Empreendedoras de todo o Brasil podem se inscrever até 29 de novembro no programa Aceleração Itaú Mulher Empreendedora. Serão selecionadas empresas que já estejam em atividade e que tenham alto potencial de impacto na sociedade. O programa é feito em parceria com a International Finance Corporation (IFC).

A seleção levará em conta o alinhamento com o tema da chamada, clareza na definição do problema endereçado e da solução oferecida, potencial de transformação ambiental e social, maturidade do projeto, oportunidade comercial e potencial de mercado, além de abertura para rever as estratégias de crescimento do negócio. O empreendimento também deve ter potencial para atingir ou ter atingido maturidade financeira. As inscrições devem ser feitas pelo site bit.ly/ItaúMulherEmpreendedora.

— Enquanto 55% dos negócios fundados apenas por homens ou com mais homens do que mulheres no quadro societário já captaram investimentos, apenas 25% das empresas com apenas mulheres ou mais mulheres como fundadoras conseguiram captar. As mulheres se deparam com menos oportunidades de aceleração — explica Mariana Fonseca, cofundadora da Pipe Social e coordenadora do estudo Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental.

Dificuldade é maior para negras

Se, para as mulheres, empreender é difícil, para as mulheres negras e periféricas, as dificuldades aumentam. Não só o acesso ao crédito é mais complicado, mas a própria possibilidade de sonhar também é limitada por uma realidade socioeconômica que as desfavorece, segundo a empresária Cris Guterres:

— Quando a gente pensa em mulheres, é muito importante que a gente diga de que mulheres estamos falando, porque não estamos na mesma realidade. As mulheres negras estão empreendendo mais por necessidade do que por uma possibilidade de sonhar, pensar e realizar. E quando a gente empreende por necessidade, acaba ocupando postos que nos dão as menores remunerações.

Para a Maitê Lourenço, criadora da aceleradora de startups para negros e negras BlackRocks, os critérios utilizados para conceder financiamento a negócios em fase inicial acaba deixando de fora empreendimentos que têm potencial, mas não têm condições de crescer.

— Muitas startups tradicionais começam sem sair do zero, porque familiares ajudam, as pessoas conseguem investimentos. Eu estive no Vale do Silício, onde um investidor me disse que um dos pré-requisitos para investir em um negócio é que a startup brasileira tenha pelo menos um empreendedor com MBA fora do país. A gente tem uma estrutura de investimento, dentro dos bancos, que privilegia o já privilegiado — afirma.

Luciana Nicola, do Itaú Unibanco, conta ainda que, no segmento de microcrédito, as mulheres de periferias têm dificuldade maior de se ver como empreendedoras:

— Muitas não planejam ser empreendedoras, elas apenas se tornam por questão de necessidade. Por isso, acabam chegando menos preparadas que os homens e tendem a ser mais conservadoras. Às vezes, elas têm a oportunidade de conseguir um bom crédito, mas têm medo. É preciso fazer com que se empoderem mais.

Desafios e vantagens

Autoestima

Segundo Maira Machado, gerente de Microcrédito e Empreendimento do Itaú, as mulheres têm dificuldade para se ver como líderes e donas do próprio negócio. Muitas têm medo de crescer e passar a ganhar mais do que o marido ou ter menos tempo para se dedicar à família.

Finanças

Há uma tendência de as mulheres delegarem a gestão financeira do negócio a terceiros, normalmente homens. A empresária Fabiana Salles, da Gesto, conta que a segunda maior causa da quebra de empresas é a contabilidade: “É importante buscar ajuda e aprender sobre o assunto, para não colocar tudo nas mãos de um contador”.

Redes de contato

Ter contatos é fundamental para negócios que estão começando, seja para achar fornecedores e clientes ou até para trocar ideias com outros empreendedores. As mulheres costumam ter redes de contato mais restritas que os homens, em parte, por terem menos tempo livre em função da dupla ou tripla jornada. “E o machismo faz com que uma mulher que convide um homem para um café ou jantar possa ser mal-interpretada”, diz Maira.

Resiliência

Segundo Luciana Nicola, as mulheres saem na frente no quesito resiliência. “Elas se reerguem e agem mais rápido que os homens quando têm um problema”, aponta. Além disso, tendem a ser mais disciplinadas e cuidadosas do que os homens.

Fonte: Extra

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