Em empresas ou organizações do terceiro setor, empreendedoras brasileiras vêm mostrando que é possível construir uma carreira bem-sucedida com um olhar social

De acordo com o Mapeamento sobre Empreendedorismo Social e Criativo no Brasil, realizado pela British Council e divulgado em 2020, 51% das empresas sociais no Brasil são lideradas por mulheres.

Além disso, as mulheres estão à frente de 50% dos novos empreendimentos do país, de acordo com um levantamento do Sebrae. A igualdade entre homens e mulheres empreendedores, no entanto, ainda não é uma realidade.

Na maioria dos casos, as mulheres  abrem negócios de nichos tradicionais, como moda e beleza, de pouca inovação e baixo potencial para retorno financeiro.

Ainda assim, empreendedoras brasileiras vêm atuando na contramão destes dados, mostrando que as mulheres podem empreender em qualquer área ou setor, tendo lucro e propósito.

Meu sonho quebra barreiras

Laís Higashi, de 28 anos, cresceu com referências femininas no empreendedorismo. Mesmo sem saberem o que era empreendedorismo, suas tias tinham seus próprios negócios e sua mãe chegou a ter uma escola infantil.

A vontade de empreender nasceu ali. Mas foi no espaço universitário que Laís se encontrou. Na graduação em Administração na Universidade de São Paulo (USP), ela ouviu falar pela primeira vez sobre o empreendedorismo social.

“O empreendedorismo social ainda não é visto como uma carreira séria a se seguir. Não há uma valorização das organizações sociais. Por que lutar por uma sociedade melhor deveria ser visto como algo ruim?”.

Nesta época, Laís se tornou voluntária da ONG Litro de Luz, um movimento global que promove o acesso à eletricidade em comunidades vulneráveis que ainda não contam com iluminação pública.

Laís coordenou as primeiras ações em São Paulo, ainda em 2015, além de auxiliar na construção da metodologia da organização no país, que prioriza a escuta para poder agir.

É necessário entender a comunidade, senão corremos o risco de fazer besteira. Por isso criamos a figura do embaixador. Quem melhor do que a comunidade para dizer o que é bom fazer? O embaixador é a ponte neste diálogo. A pessoa do local que atua junto com a gente. Além da formação dos voluntários, capacitamos os membros das comunidades para que saibam fazer e usar os recursos que levamos”, esclarece.

Foto: Renato Stockler/via Assessoria de impressa | Foto tirada antes da pandemia.

A experiência e a vontade de atuar no empreendedorismo social levaram Laís ao cargo de diretora-presidente da ONG no Brasil, no qual continua desde 2016.

“Nasci tendo o acesso à energia como algo normal para mim. Não sabia que era um problema até conhecer a ONG. É um direito básico ter iluminação e energia”.

A organização une reciclagem e tecnologia ao utilizar garrafas pet para criar os lampiões portáteis, lâmpadas de Moser e os postes de luz instalados nas comunidades urbanas, rurais e ribeirinhas. A luz vem de uma bateria alimentada por uma pequena placa solar.

Como uma jovem mulher descendente de japoneses, Laís vê sua atuação como uma forma de desmistificar os estereótipos que cercam as mulheres e o empreendedorismo social.

“É uma intersecção de várias coisas. Ser mulher e estar na área de tecnologia ainda causa surpresa. Mas estamos crescendo. Meu sonho é quebrar as barreiras destes estereótipos. Independentemente de qualquer coisa, eu posso liderar uma organização. O que começou com um sonho meu vai quebrar barreiras”, argumenta.

Laís se mantém firme neste objetivo. A principal motivação vem do cenário que observa ao acompanhar as comunidades após o trabalho da Litro de Luz.

“Levamos uma mudança forte para os locais em que não há energia. Na região amazônica, por exemplo, as pessoas passaram a comer com mais segurança. São comunidades que vivem da pesca e até então era comum que os indivíduos se engasgassem com as espinhas ao comerem à noite, pois não conseguiam ver. Agora mudou”.

Empreender, era essa a palavra

Enquanto se graduava em Letras, Eurides Nascimento, de 39 anos, percebeu que a segunda língua oficial do Brasil ainda era desconhecida para a maior parte dos brasileiros.

Foi então que decidiu estruturar uma empresa voltada para acessibilidade da população surda do país que se comunica através da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Mas, a Libra Mais surgiu sem que Eurides tomasse para si o título de empreendedora.

“Sempre empreendi, desde criança, mas não sabia o nome. Nas periferias de Salvador, onde cresci, saía vendendo revistas de maquiagens e roupas. Foi um choque saber que eu estava vivendo isso. A gente que é negro, de periferia e mulher faz o empreendedorismo por necessidade”.

Há três anos, quando entendeu que movimento estava fazendo, Eurides conseguiu as ferramentas necessárias para profissionalizar a Libra Mais.

“Parei e comecei a estruturar. Quando a palavra empreendedorismo chegou para mim, o amadorismo veio em peso também. Não me reconhecia como uma empreendedora”, revela.

Foto: Divulgação | Eurides como intérprete de uma apresentação em 2018.

Entretanto, ao ter acesso aos cursos e formações, Eurides deixou de apenas “operar” para “gerir” um negócio. Atualmente, a Libras Mais oferece workshops, cursos, consultoria para empresas e desenvolve materiais pedagógicos, brinquedos, saraus e eventos culturais voltados para a comunidade surda, mas também aberta para ouvintes.

As profissionais que atuam como intérpretes em lives e eventos são, em sua maioria, mulheres negras. Eurides já conseguiu contratar três fixas, além de manter profissionais freelancers.

A empreendedora ressalta que a sustentabilidade financeira ainda é um desafio para a empresa. Sem investidores, a Libra Mais vem funcionando com o valor dos cursos e consultorias.

Outra verba vem com as capacitações, mas o valor ainda é baixo, uma vez que as famílias de pessoas surdas recebem bolsas.

Neste cenário, a CEO da Libras Mais ressalta que ser mulher, negra, periférica e mãe não facilita a realização dos negócios.

“Há um tempo, realizei um trabalho para uma organização bacana, mas que não pagou. Fico me perguntando: será que fizeram isso com outras pessoas das quais haviam contratado os serviços? Ainda falta um respeito em relação aos empreendimentos sociais”.

Situações como essa se aliam a outros gatilhos que levam à desmotivação. “Na pandemia, as pessoas diziam que era maluquice o que eu estava fazendo, que não havia público. São coisas que muitas vezes nos enfraquecem. É algo com que venho lutando”.

Com o aumento da realização de lives e shows online, Eurides viu o interesse pelo trabalho do intérprete de Libras crescer. Ela ressalta que é uma tendência que continuará após o fim do isolamento.

A estrutura só muda de bonde

Buscando oferecer suporte para empreendedores como Eurides, a empresária Karine Oliveira, de 27 anos, criou a Wakanda Educação.

O incômodo que Karine sentia ao ouvir termos sempre em inglês nos eventos de empreendedorismo, como pitch, call e brainstorming, motivaram o surgimento da empresa, que promove a tradução destes conceitos.

“O filme do Pantera Negra (2018) me deu esse gás. Ver aquela nação [Wakanda], mesmo que fictícia, me motivou. Eu já tinha criado a metodologia na faculdade, onde eu via diversos empreendedores negros pelo caminho, vendendo doces e alimentos. Só faltava colocar a mão na massa”, revela.

Karine exemplifica a necessidade de uma empresa como a Wakanda Educação por meio da atuação dos vendedores de bala no transporte público.

“O que é um ‘pitch’ se não o discurso que os baleiros precisam fazer dentro do ônibus? Eles precisam manter atenção do público, serem rápidos e empolgantes e dizer as qualidades do produto de cinco formas diferente. É algo que eles aprenderam na vida e estão aplicando diariamente para sobreviver”.

Desde 2018, a Wakanda oferece imersões para empreendedores, mentorias, consultorias e palestras. Empresas podem comprar pacotes de cursos e mentorias para aplicar com colaboradores, enquanto os empreendedores por necessidade pagam um valor simbólico (R$ 50) pelo conteúdo.

Foto: Divulgação/assessoria de imprensa | Foto tirada antes da pandemia.

Para continuar alcançando esse público durante a pandemia, a Wakanda Educação adaptou as imersões presencias para serem aplicadas através do WhatsApp. Karine ressalta que quase 90% dos empreendedores por necessidade que buscam a capacitação são mulheres negras e periféricas.

“A proposta é mostrar para esse empreendedor que ele sabe. Abraçamos a realidade do empreendedor para mostrar o quanto ele pode mudar tendo o conhecimento, que é possível crescer vendendo bolo de pote”, argumenta.

Observando o retorno deles após as mentorias, Karine conseguia a motivação necessária para lutar pela Wakanda, apesar dos ‘nãos’ que recebia na hora de buscar investidores.

“Foram muitas as dificuldades para provar para o sistema que era possível falar de empreendedorismo em uma linguagem que mais ninguém traz. As pessoas não validavam meu negócio, não viam como empresa. Mas eu estou vendendo um produto com um lado social”.

Em meio à pandemia, a Wakanda Educação se consolidou e conseguiu estabelecer um reconhecimento nacional. Com a participação no Shark Tank Brasil, reality de empreendedorismo da Sony Channel, Karine ganhou uma sócia, a empresária carioca Camila Farani, uma das maiores investidoras-anjo do país.

Além disso, Karine está entre os indivíduos mais bem sucedidos antes dos 30 anos selecionados pela Revista Forbes.

“A Wakanda mostrou uma Karine que eu não enxergava, que tecnologia e social não são coisas antagônicas. Estou construindo pontes para mostrar que a startup pode aprender com o empreendedor da rua e que ele também pode crescer como uma startup. A gente só muda a estrutura de bonde”, argumenta.

A miséria tem solução

Inspirada pela mãe, Alcione Albanesi, de 58 anos, fez do trabalho social sua missão de vida. Ainda na década de 1990, ela viajou com um grupo de amigos para o sertão nordestino.

“Encontramos um cenário de miséria e abandono. Eram dezenas e dezenas de povoados sem água, comida ou qualquer tipo de assistência. Crianças que fugiam assustadas, pois nunca haviam recebido a visita de ninguém disposto a ajudá-las. Desde este momento, sabia que não poderia abandoná-los”.

Foram dez anos atuando em caráter voluntário e como projeto social, até a Amigos do Bem se formalizar como uma organização do terceiro setor. Ao mesmo tempo que realizava trabalho voluntário, Alcione vinha investindo em sua carreira como empresária.

As experiências de Alcione no mundo empresarial possibilitaram que a Amigos do Bem desenvolvesse um braço de negócios de impacto social, que responde à cultura e ao modo de vida das populações atendidas.

Foto: Divulgação/Comunicação Amigos do Bem | Atuação de Alcione em Alagoas durante a pandemia.

Para Alcione, que ouviu muitas críticas ao seu trabalho por ser considerado assistencialismo, o atual estágio da organização mostra a importância de oferecer os recursos básicos para que as pessoas possam crescer.

“Escutei de muitas pessoas que não deveríamos dar o peixe e, sim, ensinar a pescar. Minha resposta sempre foi ‘Em rio seco não se pesca’Como uma criança aprende na escola chorando de fome ou de sede? Como esperar que uma família ganhe seu sustento, se vive em povoados isolados sem nenhuma oportunidade de emprego, vivendo da agricultura em uma terra onde quase nunca chove?”.

A presidente da Amigos do Bem reforça que o trabalho de assistência social não é capaz de resolver tudo, mas desempenha um papel importante ao garantir condições mínimas para o desenvolvimento do ser humano.

“Nesses 27 anos de trabalho, atendemos mais de 1,5 milhão de pessoas, nosso legado está em diversos projetos de educação e geração de renda. As crianças que corriam no mato seco, hoje são os educadores e multiplicadores do Bem. O nosso projeto já está se multiplicando no sertão e deve perpetuar para as próximas gerações, para que a fome e a miséria sejam lembrados como fatos históricos”, defende Alcione.

A Amigos do Bem alia educação e geração de renda, possibilitando o desenvolvimento econômico local, com formações e acesso a recursos básicos, como moradia e água.

Ao longo de sua trajetória, Alcione conta que aprendeu muito com as pessoas que alcançou, como Dona Geralda, uma senhora que sofria de elefantíase nas pernas e, ainda assim, caminhou mais de 6 km em busca de uma cesta básica para sua família.

“Isso aconteceu em 2001. Ao me ver, ela ainda sorriu e me deu um abraço. Fomos conhecer sua realidade de perto. Em sua casa de barro, não havia nada. Ali, ela me ensinou a receita da fome: cozinhar um punhado de feijão com muita água, servir as crianças primeiro e, se sobrasse, ela se alimentava. Ali percebi que nosso trabalho deveria transformar de forma efetiva a vida daquelas pessoas”.

Atualmente, a organização atende mais de 75 mil pessoas nos estados de Alagoas, Pernambuco e Ceará.

Crédito: Imagens foram cedidas pelas assessorias de imprensa ou são do arquivo pessoal das entrevistadas.

Por: Mariana Lima

Fonte: Observatório 3º Setor

 

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