“A aula foi transferida para a sala de estar

o modelo agora é outro, tivemos que adaptar

por vezes aulas gravadas, remotas, mas planejadas

outras formas de ensinar”

Esse verso, trecho de um cordel escrito pelo professor José Gilson Lopes, descreve um pouco da nova rotina escolar em tempos de pandemia. O educador, que vive em Fortaleza, narra, com rimas, os desafios enfrentados para que o conteúdo chegue aos alunos.

Esforços esses que têm tido resultados. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futures, mostrou que 74% dos estudantes matriculados na rede pública de ensino em todo o país recebem algum tipo de atividade – materiais impressos, online ou mesmo videoaulas, durante a suspensão das aulas.

Além disso, de acordo com o levantamento, a maioria dos alunos que acessam essas atividades – 84% – disseram dedicar mais de uma hora por dia aos estudos.

A análise, no entanto, mostrou a discrepância entre as regiões brasileiras no que diz respeito ao acesso à internet. Das famílias entrevistadas, 41% declararam não ter internet banda larga. Nas regiões Norte e Nordeste, esses índices são ainda maiores e chegam a 63% e 47%, respectivamente.

Os pretos e economicamente menos favorecidos são os mais impactados, tanto pela falta de acesso à internet quanto por outras situações, como aponta a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento no Itaú Social, Patricia Mota Guedes.

Outro cenário avaliado foi a quantidade de dispositivos para se conectar à internet. Embora 96% dos entrevistados tenham declarado ter, pelo menos, um equipamento, como smartfone, tablet, computador e mesmo smart TV, na prática, isso não é suficiente para garantir que os alunos consigam acessar os conteúdos das aulas e atividades.

O professor de língua portuguesa, José Gilson Lopes, vive esse cenário de perto e relata que muitas vezes o planejamento da aula não atinge o objetivo.

Erlaine Cristina Reis, mãe de uma aluna do 8º ano da Escola Municipal de Tempo Integral Professor Ademar Nunes Batista, também na capital cearense conta que, apesar de a filha não ter tido dificuldade, convive com outras pessoas que não tiveram a mesma sorte.

A nova rotina de ensino, remota, revela também uma outra faceta: muitos dos entrevistados, sobretudo do ensino médio, apresentam dificuldade de acompanhar os conteúdos. Esse ponto, atrelado à falta de acesso à internet e de dispositivos, tem gerado incerteza nos pais: um terço dos entrevistados – 31% – temem que os filhos abandonem a escola.

Ao todo, foram realizadas 1.028 entrevistas com pais ou responsáveis por 1.518 alunos da rede municipal e estadual de ensino, em todo território nacional. Dos que responderam, 55% se declararam pardos ou pretos, 37% brancos, 2% amarelos, 2% indígenas. E 4%, outros.

* Áudio substituído às 10h58 de 30/06/2020 devido à ampliação da reportagem

Fonte: Rádio Agência Nacional

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