Seja bem-vindo a mais um dos cenários mais marcantes da história do Jornal Nacional. Aqui foram apresentadas as notícias do Brasil e do mundo, entre 1981 e 1983. Nesse ambiente, a gente vai abordar nesta terça-feira (3) mais um tema essencial para qualquer sociedade organizada, para qualquer país: a educação.

O caminho que o Brasil percorreu nos últimos 50 anos foi difícil. Qualquer cidadão sabe o quanto o nosso país ainda sofre as consequências de um ensino deficiente.

Alunos com dificuldade de chegar a uma escola, escolas com falta de estrutura e de professores, professores com salários achatados e sem condições de se aperfeiçoar, para citar só alguns exemplos de problemas comuns. São desafios que o Brasil ainda tem que vencer.

Mas o bom de revisitar os arquivos do JN nessas cinco décadas foi que a gente viu também muitos avanços. Muitas conquistas, como garantir acesso ao ensino fundamental para quase 100% das crianças, criar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) para melhorar o financiamento da educação básica, adotar uma base curricular única num país tão grande, facilitar o acesso de negros e de crianças pobres ao ensino superior.

E nós ainda encontramos professores que, num meio tão adverso, se desdobraram, superaram obstáculos, por amor a uma profissão que é essencial para todas as outras profissões.

As conquistas são muitas, mas não eliminaram desafios, como o de assegurar que todas as crianças concluam ao menos o ensino médio. E que a qualidade desse ensino atinja patamares que permitam ao país um crescimento sólido.

No mosaico de trechos de reportagens sobre educação, os sons e imagens originais da época em que elas foram exibidas permitem enxergar, com clareza, tanto esses problemas, quanto os avanços do nosso país nesse setor. E mostram como é fundamental que educação continue a ser um tema sempre presente nas nossas reportagens.

2013: “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”, disse Malala.

Se todos os sonhos passam pelo banco da escola, o que fazer para que a educação de qualidade se torne acessível a um número cada vez maior de brasileiros?

Década de 1970: “Eu acho muita dificuldade. Principalmente trabalhar com a primeira série, porque são meninos que estão na fase de coordenação motora. E eles, no chão, não têm oportunidade”, lamentou uma professora.

Repórter: O que falta aqui na escola?

Professora: Está faltando o mobiliário, que é o principal. Cadeiras, bancos suficientes para as crianças, certo?

2006: Repórter: Aqui você está dando aula ao mesmo tempo para crianças de que série?

Professora: Primeira, segunda, terceira e quarta.

Repórter: “Você me parece desanimada, Socorro. É hoje só?”

A professora faz que “não” com a cabeça.

Uma escola que deveria preocupar todos os brasileiros de bem. “

A educação pública, ela é órfã em todos os níveis de poderes”.

“Eu quero ser professora, advogada e engenheira”, contou uma estudante.

“Veterinária”, disse outra aluna.

“Um dos meus sonhos é ser cientista. Estudar os planetas, o espaço”, contou outra aluna.

“Quando eu crescer, eu vou ser poeta. Eu vou escrever muitos poemas que nem o Mário Quintana”, disse uma estudante.

Educação de qualidade tem sido uns dos desejos mais recorrentes dos brasileiros.

Na lei mais importante do país, a Constituição, está escrito. Art. 205 – Que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família.

2002: Quanto mais cedo as crianças começam a estudar, a receber estímulo, mais elas aprendem a raciocinar e o aprendizado fica mais fácil para o resto da vida.

O BÁSICO

Os primeiros anos do ensino fundamental são a base para toda a vida escolar.

1996: Várias cidades estão virando a página dos erros na educação brasileira. Em parte, pelo programa de entregar, a cada município e a cada diretora de escola, o dinheiro da educação.

2006: O Senado aprovou hoje o texto básico da emenda constitucional que cria o Fundeb, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica nos estados e municípios.

BASE COMUM CURRICULAR

2017: É a primeira vez que o Brasil tem uma base comum curricular, estabelecendo uma formação comum. Prevê que a alfabetização ocorra nos dois primeiros anos do ensino fundamental, quando a criança tem entre sete e oito anos. Linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e ensino religioso. Todas as escolas devem implementar a base até 2020.

1983: Esta é uma classe da primeira série. São 40 alunos. Deles, só oito vão conseguir terminar o primeiro grau.

1990: Para mudar estes números, o governo vai especializar professores, melhorar escolas e construir mais salas de aula.

2012: Aprender e passar de ano não pode ser uma batalha apenas do aluno. A família, a escola, o professor são muito importantes. E fazem diferença.

2015: “Os professores que se destacam hoje, nas suas áreas, na rede pública especialmente, são os professores que conseguem trabalhar com o que se tem”, disse Vanessa Goulart, promotora de Justiça.

2017: Para despertar o interesse dos alunos e garantir o aprendizado, existem vários caminhos.

“O professor está buscando novas tecnologias, um material que seja atrativo, que chame a atenção da criança”, explicou uma professora.

“Em vez de falar de análise sintática de Camões, vamos ver se você entende a bula do remédio. São muitas possibilidades de fazer a escola interessante”, avaliou Cláudio Moura e Castro, especialista em Educação.

2011: Para entender matemática, tampinhas de garrafa.

1999: Muito antes de aprender química e biologia, as crianças entendem a transformação da semente nas verduras que vão para a salada do dia.

2000: E a lição de inglês sai do livro para ganhar vida na interpretação deles.

1996: Quanto maior for o empenho dos pais, quanto melhor for a formação dos professores e quanto mais equipada estiver a escola, melhor será o desempenho dos alunos.

1999: A biblioteca que é um capricho. A sala dos computadores, uma beleza. “Um, dois, três, quatro”, contou um aluno.

NA REDE

1984: Nós conversamos com vários alunos e todos usaram as mesmas palavras para definir o computador. Ele é divertido e ensina as coisas rapidamente.

1997: Podem ser usados em todas as classes. De geografia à matemática, passando por redação.

1996: No centro comunitário, cedido pela Igreja Católica, começa a funcionar a primeira escola de informática e cidadania. Meninos e meninas da periferia que projetam na tela do computador, o sonho de um futuro melhor. “Eu quero ser alguém no mercado de trabalho”, contou uma aluna.

1999: Quando o aluno chega na classe e abre a carteira, está abrindo um computador. Nesse computador, ele pode fazer pesquisa na internet e escrever texto. E tudo o que o professor escreve no quadro negro, que é um quadro eletrônico, aparece ao mesmo tempo aqui na tela do computador.

A qualidade do ensino depende de muitos fatores, em graus diferentes.

2010: “É um desafio que nós temos ainda: universalizar a pré-escola e universalizar o ensino médio”, disse Mozart Ramos, do movimento Todos Pela Educação.

1999: 45 milhões de estudantes estão nas escolas públicas. Segundo o Censo Escolar, eles representam mais de 87% dos alunos. A maior parte é de baixa renda. E só agora está conseguindo ter acesso à escola, que é de graça.

2015: Uma parcela enorme de estudantes termina o terceiro ano da educação fundamental sem saber o básico de matemática e de português.

“A gente vê que o ensino é o mesmo desde a década de 1980, 1990, não sei. E as coisas precisam evoluir. Precisa de uma melhoria”, contou um estudante.

2014: “Ninguém obriga um adolescente a ficar numa escola em que ele não sente ligação com o projeto de vida dele”, explicou Maria de Salete Silva, coordenadora de Programas de Educação Unicef.

2017: O governo sancionou a lei que institui a reforma do ensino médio. O número de horas de aula vai aumentar e o aluno vai poder escolher uma parte do currículo.

2018: Liberdade para escolher o que aprender na escola é um sonho antigo do jovem, mas nem tudo será opcional. Português e matemática continuam obrigatórias, durante todos os anos do ensino médio.

IDEB

Tudo isso é parâmetro do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, que avalia o desempenho escolar em português e matemática, considerando reprovações e abandono dos estudos.

2011: “Felizmente, agora, a gente tem o Ideb, que é uma nota de zero a dez que cada escola tem. Assim como o filho tem uma nota no seu aprendizado na escola, a própria escola tem uma nota”, disse Gustavo Ioschpe, especialista em Educação.

2017: O Mauro está estudando matemática. Ele segue o exemplo da irmã mais velha. Monique foi a primeira da casa a participar da Obmep, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.

2015: “As olimpíadas tiveram um papel muito importante, de ponte. Eu não sabia que existia uma carreira de matemática, quando eu comecei”, contou o matemático Artur Ávila.

Artur Ávila é o primeiro brasileiro a ganhar a medalha Fields, considerada o Nobel da Matemática.

EVASÃO

1993: Um dos problemas mais graves do ensino público, talvez o maior, foi discutido neste encontro: a evasão escolar.

2007: Fazer com que meninos e meninas permaneçam mais tempo dentro da escola continua a sendo um grande desafio da educação.

2011: O sonho de virar advogada vai ter que esperar. Aos 17 anos e grávida de cinco meses, Poliana abandonou o ensino médio numa escola do interior do Piauí.

Quando surge uma gravidez precoce, aumentam as responsabilidades, os desafios, principalmente para as mulheres. Para serem mães, muitas sacrificam justamente aquilo que poderia dar um futuro melhor para elas e seus filhos.

Quando a sala de aula fica vazia, é fácil entender o impacto da violência na educação. As crianças simplesmente ficam sem aula. Agora, os especialistas dizem que são muito mais graves os impactos físicos e emocionais que estas crianças vão sofrer a longo prazo.

2015: O que você sentiria se estudasse ao som de tiros?

2012: A gravidez na adolescência e a violência influenciam, mas há outros fatores: a dificuldade de acesso às escolas nas áreas rurais do Brasil é um dos motivos que podem levar ao abandono escolar.

Alguns chegam a andar até cinco quilômetros todos os dias debaixo do sol forte do cerrado. “As crianças ‘fica cansada’, muito”, contou um menino.

2017: Os municípios que evoluíram nas últimas avaliações nacionais seguem de perto os passos dos alunos também fora da escola.

“Se o aluno falta a escola um dia, já temos que saber por que o aluno não veio, o que o aluno está fazendo”, disse um educador.

2014: Estudar é difícil, mas nada de desistir.

“A gente tem que vir para a escola como a gente merecia. Andando, de canoa, de barco, de lancha, qualquer coisa”, disse um estudante.

Repórter: O importante é estar aqui?

Estudante: É.

2015: “Eu ouvi dos colegas: ‘Você vai fazer mestrado para continuar numa escolinha rural?’ Então eu respondi: ‘eu quero justamente fazer o mestrado para eu poder ser uma professora melhor para os meus alunos da área rural”, contou a professora.

2017: Essa escola rural se tornou a sexta do país no ranking do Ideb.

2008: Estamos na Chapada Diamantina, que fica a 480 quilômetros de Salvador. Este lugar mostra outra riqueza. Os alunos não só ultrapassaram o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, previsto pelo MEC para a região, como alcançaram a meta para o ano de 2021.

PROFESSOR

1980: Um debate em Brasília: a situação do ensino e dos professores no país.

1993: Quase metade dos professores quer mudar de profissão.

“Uma pena, porque um professor é tudo num país”, disse um professor.

“Só existem as outras profissões, porque existe o professor”, afirmou outra professora.

1980: “Nós somos obrigados a aguentar em cada sala de aula, muitas vezes, mais que 40 alunos. E, além disso, os baixos salários obrigam o professor a trabalhar muito”, contou uma professora.

2011: “Eu ensino em duas escolas particulares e numa escola da rede municipal, mais esta escola que é da rede estadual. De manhã, à tarde e à noite”, explicou outra professora.

2019: Uma brasileira de São Paulo ficou entre os dez finalistas do principal prêmio para professores do mundo.

“Eu vejo os meus alunos querendo ser engenheiros, querendo ser biólogos, porque despertou esta aprendizagem para eles. Eles entenderam que eles têm lugar no mundo hoje”, contou Débora Garofalo.

EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA

2009: A antena rompeu o isolamento de cinco séculos e inaugurou um novo jeito de aprender. Tudo via satélite.

Foi assim que o ex-vidraceiro Paulo mudou de profissão. Atravessava noites estudando em casa, no Recife, e acordava cedo para acompanhar as aulas do Telecurso na TV: ‘Foi uma grande oportunidade para eu poder ganhar tempo e mudar a minha situação”. Ele se formou em filosofia e virou o autor do livro do Telecurso.

“O curso à distância é o futuro da educação, seja para apoiar a educação presencial, seja para permitir que seja feita uma educação nessa modalidade”, afirmou Stavros Xanthopoylos, diretor do FGV Online.

“Distante ou perto, o importante é que esteja estudando. Porque, sem a educação, a gente praticamente não é nada”, disse um pai.

2019: Se a educação ilumina o caminho as pessoas, ainda temos 11,3 milhões brasileiros vivendo na escuridão. São aqueles que, em pleno século 21, não sabem ler nem escrever. O analfabetismo é uma praga que vem sendo combatida, mas em ritmo lento.

2002: “Eu me sentia uma cega. Não sabia nem ler nem escrever. Olhava aquilo ali, eu não estava enxergando nada que estava escrito ali”, afirmou uma estudante.

“Você pega aquele ônibus que não sabe para onde ir. Só pega só o jeito, o tipo do ônibus, uma cor que seja, e não sabe para onde é que ele vai”, contou outro aluno.

2018: A sala de aula costuma representar o primeiro passo de uma guinada que estava só no desejo até agora.

2019: A escuridão ficou no passado e dona Maria, aos 70 anos, pegou tanto gosto que não larga os estudos. “E eu quero ainda subir na faculdade”, contou.

1978: Os vestibulandos hoje esqueceram os livros e procuraram as praias e os cinemas. Pequenos grupos, no entanto, ainda compareceram aos cursinhos pré-vestibulares em busca de um reforço.

1978: Na próxima segunda-feira, serão realizadas mais duas provas. Da Avenida Agamenon Magalhães para o Jornal Nacional.

1978: Repórter: “Você está chorando? Você não passou?”

Aluna: “Passei!”

Repórter: “E você está chorando por quê?”

Aluna: “Porque eu passei, poxa. Passei o ano estudando.”

“Eu passei em Odontologia. Estou feliz que só a peste!”, contou outro estudante

1995: Na Universidade de Brasília, nem foi preciso pensar muito para escolher uma forma de substituir o vestibular. Os candidatos vão fazer provas no final de cada série do segundo grau.

ENEM

Começaram as inscrições para o Enem 2019.

A partir do ano que vem, o Enem vai ter uma versão digital das provas.

É o passaporte para a entrada em pelo menos 129 instituições públicas no Brasil. O estudante vai pegar a nota do Exame Nacional do Ensino Médio e se inscrever no Sisu.

SISU, PROUNI E FIES

2018: O Sistema de Seleção Unificada que classifica alunos para universidades públicas de todo o país. O Prouni também faz seleção de estudantes para bolsas em faculdades particulares, com base nas notas do Enem e no perfil de renda familiar. O Fies financia, com juros mais baixos e prazos mais longos, os cursos superiores de quem fez qualquer edição do Enem de 2010 para cá.

COTAS RACIAIS E SOCIAIS

2012: O Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade a adoção da política de cotas raciais nas universidades públicas.

A maioria dos ministros do Supremo aprovou a política de cotas sociais para o ingresso nas universidades públicas.

PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

2016: O presidente sancionou a lei que inclui pessoas com deficiência no sistema de cotas adotado pelas universidades e escolas técnicas federais.

2018: As universidades brasileiras estão recebendo alunos que estiveram longe das salas de aula por muito tempo.

2010: Quando caminha pelo campus, Bianca se sente cada vez mais perto de ultrapassar uma nova barreira. Filha de família pobre, a aluna vai vencendo as dificuldades para chegar aonde quer: “Concluir a faculdade e dar continuidade à pedagogia, que é a educação”.

“É porque, quando a gente vai crescendo, a gente tem que arranjar um emprego e a gente tem que saber das coisas, porque se não a gente não vai crescer na vida”, disse a aluna.

2014: “Que nós sejamos a última geração a ver salas de aula vazias, infâncias perdidas e potenciais desperdiçados”, afirmou Malala.

2004: Num assunto de importância capital, como educação, sempre haverá motivo para discussões, porque sempre haverá problemas para resolver. Mas o bom dessa história é que sempre haverá soluções, enquanto houver gente séria tentando encontrá-las.

2017: “Eu diria que é bom estudar, pensar no futuro e agir no presente”, disse uma estudante.

Fonte: G1

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui