MANAUS, 05/08/154 POLO INDUSTRIAL DE MANAUS. FOTO: ROBERVALDO ROCHA / CMM

As queimadas na Amazônia representam enorme ameaça para nós, amazônidas, e para o mundo. Além do impacto no planeta, riquezas incalculáveis da biodiversidade, residentes nas plantas, nas árvores e no solo, podem ser destruídas pelos incêndios, para que se coloque no lugar capim para pasto, soja ou, sabe-se lá, algo similar.

Em tempos de fakenews, muitas informações que chegam aos cidadãos do mundo parecem embutir interesses os mais diversos e esconder a verdadeira intenção dos que defendem suas posições. A sociedade, por sua vez, é manipulada por um verdadeiro arsenal de argumentos, sinceros ou oportunistas, de lado a lado.

A crescente polarização da sociedade está tornando o debate para a busca de alternativas voltadas à preservação da Amazônia, cada vez mais inviável. A intolerância está virando regra. A sensatez está se subordinando à cegueira e, muitas vezes, ao ódio.

O que talvez seja mais importante – soluções para o desenvolvimento da região e de seus moradores e a utilização da biodiversidade em benefício da humanidade – tem passado ao largo das discussões.

Preservar o bioma amazônico, mas, também, utilizar as potencialidades das suas diversas regiões, de forma sustentável, possibilitando prosperidade aos seus cidadãos, deveria ser a prioridade.

Tratando específicamente do Amazonas, tive a oportunidade de conhecer muitas propostas a respeito de alternativas para o desenvolvimento do Estado. Diversas missões vieram nos sugerir como desenvolvê-lo. Muitos consultores e especialistas expuseram, de forma peremptória, as suas propostas. Algumas boas, outras inviáveis.

Por dever das atividades que desempenhava, vi e ouvi de tudo um pouco: grupos de trabalho vieram tratar do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), do Planejamento Estratégico da Suframa, de políticas voltadas para o desenvolvimento regional, da criação de ambientes tecnológicos, e por aí vai.

A proposta mais recente para desenvolver a Amazônia, de que tenho notícia, foi apresentada recentemente pelo Ministro Paulo Guedes, durante reunião do Conselho de Administração da Suframa, do qual é (ou era) o Presidente. Segundo o Ministro, o Brasil deve “estudar uma forma de negociar com outros países a propriedade sobre a produção do oxigênio da Amazônia”, por meio da criação de uma “Bolsa mundial”.

Se a proposta é viável ou não, é difícil de avaliar. Mas foi apresentada pelo Ministro Guedes em meio a mais uma enorme pressão internacional sobre esta rica região, habitada por uma população, em sua maioria, muito pobre.

De nada adianta possuirmos biodiversidade, minérios, água potável, grandes espaços vazios, áreas turísticas inimagináveis, para mencionar as palavras do próprio Presidente Jair Bolsonaro, quando aqui esteve no mesmo evento em que participou o Ministro Paulo Guedes, se toda essa abundância de recursos naturais não se transformar em oportunidades e em riqueza econômica a ser distribuída para a população.

Estamos vivenciando contradições. Por um lado, parece que as queimadas se tornaram o estopim para que a comunidade internacional sinalizasse claramente, mais que o interesse, a necessidade de interferir incisivamente nas decisões a serem tomadas quanto ao destino do desenvolvimento da Amazônia.

O Presidente francês Emmanuel Macron, por exemplo, foi taxativo ao explicitar que “a nossa casa queima”, sugerindo dar a ela status internacional. Acredito que se sentiu no direito de falar da “nossa casa” porque a Guiana é francesa.

O Grupo dos 7 (sete) países mais desenvolvidos (G7), a ONU e a Igreja Católica por meio do Sínodo, estão se reunindo em seus respectivos fóruns, para tratar, aparentemente, de temas sobre a Amazônia que envolvam a preservação da floresta e a questão indígena, cujos conflitos pela terra são constantes, principalmente quando envolvem atividades de mineração.

A discussão é ampla, parece não ter fim e a desinformação é comum. Uma região com a dimensão da Amazônia, ocupando aproxidamente 60% do Brasil, com vários tipos de solo, vegetação, topografia e clima, exige muito estudo e pesquisa para o seu entendimento e utilização adequada dos recursos. Penso estarmos longe de ter atingido esse patamar.

O fato é que nós, amazônidas, continuamos vivendo sob a mesma insegurança secular.

Com sua economia sustentada no modelo de incentivos fiscais, foi construído em Manaus, ao longo de quase meio século, um Polo Industrial nada desprezível. Talvez seu grau de evolução devesse estar mais avançado e consistente.

(Continua…)

Por Niomar Pimenta

ViaNiomar Pimenta
Niomar Pimenta
Graduado em Engenharia de Telecomunicações pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (1978), possui mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal da Paraíba (1992) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005). Colaborador da Fucapi, na área de Educação, por 33 anos e professor do curso de Engenharia Elétrica da Ufam, por 37 anos. Atualmente, atua no projeto Academy da FPF Tech e do INDT.

2 COMENTÁRIOS

  1. Professor, ao contrário do que o senso comum dominante no Brasil (que infelizmente deixa muito a desejar em termos de leitura política) faz crer, a Amazônia perpassa as fronteiras brasileiras e não é uma região isolada, como o conhecimento cartesiano faz crer, mas sim um sistema pujante, vivo e inter relacionado. Só pra ilustrar: a Amazônia peruana de fato está abrangida pela soberania peruana. Mas se eles resolverem explorar as nascentes dos rios com atividades poluentes, digamos, com mercúrio, nós teríamos direito e até o dever de insurgência, dentro dos liames diplomáticos, já que além da questão ambiental lato sensu, a água que vem de lá em parte nos abastece. Podemos falar dos rios voadores, dos aquíferos, da preservação de conhecimento dos povos tradicionais, etc, e miríades de outras questões que denotam claramente que antes de exacerbar o discurso pela propriedade de um trecho da Amazônia (discurso fácil que políticos preguiçosos acostumados a dormir por décadas no exercício de seu mister e muitas vezes mal intencionados adotam), devemos antes assentar um sentimento de responsabilidade por tão grande e importante galardão que foi consignado pela história à responsabilidade do Brasil. Os homens de ciência que ainda restam no Brasil 2019 (que odeia a ciência), devem ser a linha de frente no esclarecimento dessa questão. Até para, da mesma forma, rejeitar a tese santuarista de que não é possível o uso sustentável dos recursos amazônicos e que ela deve permanecer virgem e imaculada.

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