É nas mãos do paulista Jefferson Michaelis, de 52 anos, que está o futuro da Nasa e das empresas espaciais SpaceX Blue Origin, dos megaempresários Elon Musk e Jeff Bezos. Pode parecer exagero, mas Michaelis tem uma responsabilidade que justifica a comparação. É ele quem senta com cientistas, entende suas necessidades e as traduz em materiais de educação espacial para jovens ao redor do mundo. O objetivo? Criar novas gerações de estudantes apaixonados pelo espaço.

Michaelis é diretor da KSC International Space Academy, programa global de incentivo à educação espacial investido pela Nasa. Por colaborar com a agência norte-americana, Michaelis também atua como diretor de educação espacial do Kennedy Space Center, um dos mais famosos centros de pesquisa e turismo da Nasa.

É nesse centro de pesquisa que o brasileiro trabalha. “A minha função? Tomar café e comer donuts com cientistas, para entender o que eles estão fazendo”, diz Michaelis, em entrevista exclusiva para Época NEGÓCIOS. O professor esteve no Brasil para o BEST Summit 2019, evento que aconteceu em São Paulo durante os dias 4 e 5 de junho.

A função de Michaelis, claro, vai muito além disso. Seu trabalho mescla as áreas de recursos humanos e educação. Ao lado de uma equipe de cinco pessoas, foca seus esforços em transformar temas distantes para a população em materiais palatáveis, quase sempre focados em crianças.

Segundo o funcionário da Nasa, projetos como esses são parte de uma reparação histórica. Por conta dos cortes sofridos pelo programa espacial durante a crise de 2008, há nos Estados Unidos uma “geração perdida” de jovens que não tiveram oportunidade de se aprimorar setor. No Brasil, a situação é semelhante, por conta da crise que se seguiu ao acidente ocorrido no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, que matou 21 civis em 2002.

Jefferson Michaelis, diretor da KSC International Space Academy (Foto: Divugação)

Foi em 2015 que Michaelis se voltou para a educação especial. Na época, quando ele ainda atuava como diretor da Câmara de Comércio Brasil-EUA da Flórida, funcionários da Nasa vieram ao Brasil em busca de parceiros de negócios.

“Na época, parecia que o país ia deslanchar na área espacial, mas o que veio depois deixou a desejar. Não tínhamos pessoas para trabalhar nesses projetos”, diz. Do lado dos EUA, empresas e oportunidades surgiram, mas os recursos humanos não deram conta. Numa tentativa de mudar o cenário, Michaelis foi convidado por conhecidos da Nasa para trabalhar com educação focada nas novas gerações.

Na prática

Um bom exemplo do trabalho de Michaelis é o que aconteceu durante o programa Veggie, uma câmara criada pela Nasa com o objetivo de descobrir se vegetais podem sobreviver fora da Terra. O paulista passou boa parte da pesquisa, quase seis meses, ao lado do time de cientistas responsável pelo estudo, com a finalidade de criar conteúdo em forma de apostilas e vídeos para estudantes.

Hoje, desenvolve cursos de programação, robótica, botânica e astronomia em diversos países da América Latina e da Europa. “Não vou mentir. Em certos projetos, não entendo nada sobre os temas abordados. Mas o segredo é se cercar de pessoas mais inteligentes que você”, afirma.

Incentivar garotas a investir na carreira espacial é uma das prioridades de Michaelis nesse momento. A missão surgiu depois que a agência espacial anunciou que o próximo astronauta a pisar na Lua será uma mulher. A proposta é que esse seja apenas o início de uma série de investimentos da Nasa em equidade de gênero nas missões espaciais.

Nos casos de SpaceX e Blue Origin, o brasileiro diz que trabalhos básicos de incentivo à educação espacial atendem diretamente às empresas de Musk e Bezos. Ele não vê uma competição entre essas companhias e a Nasa. “É engraçado. Nos EUA, somos incentivados a trabalhar com várias empresas. É diferente do Brasil, onde há uma cultura de competitividade muito forte”, diz.

Manifestações

No cenário brasileiro atual, o clima é tenso quando o assunto é educação. Nas últimas semanas, milhares de jovens foram às ruas protestar contra a suspensão da concessão de novas bolsas para pesquisadores e a diminuição de verbas das universidades federais anunciados pelo Ministério da Educação. Michaelis, que vive nos Estados Unidos há mais de 20 anos, acredita que o país vive um momento de transição.

“Na crise de 2008, escolas fecharam e projetos foram cancelados, porque não tinha dinheiro. Assim como nos EUA, o Brasil vai passar por um processo de adaptação”, diz. Na época, uma consequência foi o aumento de oferta de ensino técnico no país. “Acho que a forma como o brasileiro entende educação vai mudar”, diz.

O modelo de ensino técnico agrada Michaeli, que cita como exemplo as escolas do Sesi/Senai. “Sempre que os americanos participam de competições no Brasil, ficam impressionados com as equipes de robótica”, diz. Sobre o futuro, acredita no potencial do Brasil. “Acho que o próprio mercado vai se adaptar ao remanejamento. Os EUA conseguiram reutilizar os recursos que tinham. Penso que isso também pode acontecer no Brasil.”

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