Por uma vida amarela

Será que os jovens de hoje são mais felizes do que os das gerações anteriores? A pergunta não é tão simples de ser respondida e nem se resume num sim ou não, mas é importante pra começarmos esse papo. Porque, se o mundo atual conta com tantas facilidades e possibilidades, que incluem tecnologias digitais acessíveis, as quais podem elevar nossa conscientização; mais faculdades e universidades, que propõem mais reflexões e conhecimentos; outra mentalidade em relação às sociedades, hoje muito mais inclusiva e ao mesmo tempo compartilhada; temos também no Brasil o aumento expressivo no número de suicídios entre os jovens.

Menos tabu

Os dados são alarmantes e o assunto é considerado caso de saúde pública, porém – apesar da gravidade – o tema ainda é tabu. Não gostamos de falar em morte! Como se ela fosse esquecer-se da gente pra sempre. Então, perdemos a oportunidade de refletir, tirar lições e, melhor, contribuir para diminuir as tentativas de suicídio. Afinal, nem nós e nossos parentes ou amigos estão livres dessa tragédia.

E se setembro é o mês escolhido pelo Centro de Valorização à Vida (CVV) para trazer o assunto à reflexão, que a gente faça de todos os dias o momento ideal pra cuidar da vida, preservando-a. Não importa se é setembro, fevereiro ou abril, a gente precisa ter mais comprometimento e coragem, e observar mais de perto o comportamento dos nossos jovens. Assim podemos entendê-los e ajudá-los enquanto há tempo!

Essa população já tem seus próprios problemas e dilemas: mudança de fase da vida, insegurança quanto à escolha da faculdade, pressão familiar e social para que seja alguém na vida, situações relacionadas ao próprio sexo, bem como as afetivas, entre outras. Estar atento a qualquer mudança repentina no comportamento pode ser um indicativo de que algo não vai muito bem.

Segundo do fim

Mas, o assunto não se refere somente aos jovens, pois, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo. Entretanto, os jovens são os mais afetados, pois o suicídio é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade.

O suicídio acontece em países ricos e pobres, porém, 80% dos óbitos são identificados em países de renda baixa e média. Segundo a OMS o suicídio leva embora quase 1 milhão de vidas por ano, interrompendo histórias e deixando marcas profundas aos que ficam.

Fast e com dor

Acompanhando o ritmo da internet, os jovens vivem nessa sensação de imediatismo, levando-os a desenvolver mais impulsividade, aumentando a ansiedade, e num mundo onde tudo é fast esperar o tempo de maturação das situações passa a ser uma impossibilidade para o jovem, que facilmente entra em depressão ou se angustia profundamente, e o tamanho da dor torna-se pesado demais para suportar.

Nas décadas recentes, envoltas em tantas mudanças, só queremos experimentar o lado bom da vida perfeita, aquela das postagens das redes. Estamos perdendo a habilidade de lidar com os contratempos, as dificuldades e as dores. Sim, isso tudo faz parte da natureza humana! Quem não vivencia suas dores, guarda marcas que impactarão na saúde mental e emocional em algum momento. O segredo é entender o período e saber partir pra outra.

Momento pra tudo

É normal chorar, sofrer com a perda de alguém importante ou um amor que não vingou. É importante se deixar viver esse período, pra digerir, compreender e tirar lições construtivas. Até que o sol (consciência) chegue e a gente consiga sair disso. O problema é que está cada vez mais difícil pros jovens perceberem que tudo passa. Tudo são ciclos, fases e até mesmo momentos!

Então, quando as coisas não saem como o planejado e a frustração passa a ser insuportável, incontrolável, o jovem – não enxergando – uma solução imediata, para se libertar da dor e do sofrimento, recorre ao suicídio, uma fuga vazia e sem volta! Nesse vácuo de tempo, a dedicação e compreensão dos adultos são fundamentais pra evitar o pior.

Com o coração

Mas, podemos freiar esse processo se evitarmos algumas possíveis causas, como, por exemplo, o bullying na escola, que ainda é um assunto sério que destrói a vida social do aluno.

Mesmo assim, professores, diretores e outros membros da comunidade escolar, fecham os olhos. Acham que é bobeira e não dão a mínima bola, o que agrava ainda mais o sofrimento de quem é vítima de alguma discriminação.  Uma boa dose de compreensão e compaixão é muito útil nesses momentos críticos. É importante, nesse caso, que a família esteja em sintonia com a escola.

Tecnologia da infelicidade

Outra correlação que se pode fazer na intenção de levantarmos possíveis causas que culminam em suicídio, refere-se ao uso indiscriminado da internet, ou seja, tecnologia e suicídio. O crescimento do uso de tecnologias, como smartphone, computador e tablet  – coincidentemente – tem contribuído para o aumento das estatísticas do suicídio.

A reportagem do site da Agência Brasil* aborda essa questão, apresentando, inclusive, estudos internacionais que relacionam o uso massivo de tecnologias e o aumento de relatos de problemas de saúde mental nos últimos anos.

Um dos artigos mencionados, que foi desenvolvido por acadêmicos da Universidade San Diego, nos Estados Unidos, sinalizou que adolescentes mais expostos aos dispositivos eletrônicos manifestaram menores níveis de autoestima, satisfação com a vida e felicidade.

Já em outro, realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford, foram mapeados trabalhos acadêmicos e levantamentos focados em identificar a relação entre hábitos de consumo de dispositivos técnicos e comportamento suicida, mostrando alguns possíveis vínculos.

Entretanto, é preciso considerar que muitas vezes as redes são a fuga necessária para se evitar o ponto final, como os blogues que são espaços democráticos e tratam de todos os assuntos, ajudando a aliviar a dor represada. Balancear seu uso, ainda pode ser uma forma saudável de preservar a vida.

Mas, não são necessárias muitas pesquisas para gente perceber o quanto estes tempos – diferentemente do passado – nos distanciaram uns dos outros no dia a dia. São pais que não veem os atos dos filhos, professores que não observam seus alunos, amigos que não percebem a mudança no comportamento emocional do amigo. Esse distanciamento pode levar a um caminho sem volta!

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