Fabio Coelho, presidente do Google no Brasil, acredita que escutar as pessoas é um dos passos mais importantes para enfrentar desafios que a pandemia traz

Com uma carreira de quase dez anos no Google, Fabio Coelho, de 56 anos, está liderando a empresa em um dos momentos mais delicados da história do planeta: a crise do novo coronavírus. Mesmo que a pandemia não tenha influenciado negativamente os negócios, a empresa teve de tomar decisões rápidas — como colocar os cerca de 1.000 funcionários do escritório de São Paulo em home office, mesmo antes da determinação oficial do governo — e desacelerar contratações.

Em entrevista para VOCÊ S/A, o executivo explica como está o momento da multinacional e faz algumas previsões sobre o futuro. Para ele, o momento é uma oportunidade para lutar contra a profunda desigualdade do Brasil.

Por sermos do setor de tecnologia, o Google não é o tipo de empresa que foi tão afetado pela crise. Mantemos há um bom tempo um crescimento robusto de dois dígitos e não precisamos fazer nenhum tipo de corte de salários ou readequações nesse sentido. Globalmente, diminuímos o ritmo de contratações, pois é natural que tenhamos de ser mais cautelosos neste momento. É como no avião: quando começa uma turbulência, devemos trazer o banco para a posição vertical, os comissários de bordo não vão servir nada e, se as máscaras de oxigênio caírem, precisaremos colocá-las primeiro em nós mesmos para depois ajudar os outros. Estamos há 15 anos no Brasil e o país, inclusive, está impulsionando o crescimento de algumas ferramentas do Google, como o YouTube.

A febre das lives ajudou nisso?

Bastante. E esse é um fenômeno brasileiro por excelência. Para você ter uma ideia, das dez maiores lives de música do YouTube no mundo, sete são brasileiras.

Alguns executivos estão usando as lives como ferramentas de comunicação. É o seu caso?

Tenho participado de lives. Externamente, faço algumas para levar informações importantes sobre o coronavírus. Internamente, as video­conferências são importantes para manter o alinhamento e o engajamento dos times. Uma vez por semana, por exemplo, fazemos o All ­Hands, uma reunião aberta a todos os funcionários sobre temas diversos da qual eu participo. Recentemente trouxemos um médico da Universidade Stanford para falar sobre o coronavírus. Esse tem sido um espaço para manter todos conectados à empresa, mesmo à distância.

 (Arte/VOCÊ S/A)

O Google colocou os funcionários em home office um pouco antes de a quarentena oficial da cidade de São Paulo ser decretada. Como foi esse processo?

Estamos numa rede global e conversamos com pessoas de escritórios do Google em outros países o tempo todo. Por isso, já tínhamos um plano do que fazer quando o coronavírus chegasse ao Brasil. Não sabíamos quando, mas sabíamos que precisávamos estar preparados. Por sermos uma empresa de tecnologia, temos os equipamentos e os softwares necessários para que todo mundo possa trabalhar de casa.

É importante destacar isso, porque não minimizo a dificuldade de outras empresas que não têm tecnologia como a gente para fazer esse processo. Do ponto de vista prático, checamos a atualização das chaves de segurança dos funcionários — por trabalharmos com dados, temos um protocolo de segurança muito rígido, que deve ser seguido no home office — e se eles tinham todos os equipamentos de que precisariam, como monitores.

Houve algum tipo de benefício para os funcionários implantarem o home office?

Já oferecemos um benefício de reembolso de conexão de internet, mas ajudamos aqueles que não tinham banda suficiente para trabalhar. Também fizemos conscientização sobre ergonomia, porque em casa nem sempre temos as melhores condições de espaço físico.

O Google é conhecido por seu escritório bem interativo. Como estão fazendo para que as pessoas continuem se sentindo parte da empresa, mesmo de longe?

Estamos em contato o tempo todo. Além do All Hands, o pessoal faz happy hour à distância. As pessoas tentam se reunir diariamente para se sentirem próximas. Mas uma coisa que estamos reforçando muito é que os horários não podem extrapolar. Eu mesmo cuido para terminar o expediente umas 19h30, pois precisamos ter tempo para nossas famílias.

Vocês já estão pensando num retorno ao escritório? Haverá mudanças na arquitetura da sede?

Não sabemos quando vai ser, mas já estamos imaginando. Talvez a distância entre as mesas tenha de ser maior; e a higienização dos locais de trabalho, mais constantes. As pes­soas vão precisar continuar a respeitar o distanciamento social e não vai dar para fazer eventos para muita gente, por exemplo. Talvez seja necessário ter uma parte participando presencialmente e outra online. E existe a questão do home office. Não vai dar para todo mundo vir para o escritório ao mesmo tempo. Primeiro, porque não caberá com as mudanças que faremos para respeitar o distanciamento. Segundo, porque o modelo de trabalho tradicional, que vem da revolução industrial e tem horários fixos, não faz mais tanto sentido.

Outro ponto é que, como sociedade, precisamos repensar a forma como as pessoas se aglomeram no transporte público para ir ao trabalho. Nosso retorno será cauteloso e tendo muita empatia para ouvir os funcionários. Alguns poderão se sentir receosos em sair de casa, porque fazem parte de grupos de risco ou por outras questões.

De que maneira os líderes devem agir agora?

Liderar com empatia é algo extremamente importante neste momento. Eu estou aqui para ajudar as pessoas a entregar o melhor possível com autonomia e responsabilidade. Também é importante ter uma comunicação honesta e transparente, para que todos entendam quais são as prioridades.

Quais são as transformações que virão depois desta crise?

A pandemia evidenciou a desigualdade do Brasil, onde ainda existe muita gente sem acesso a saúde, saneamento básico e educação. Já estamos vendo um senso maior de coletivo, de pensar mais nas necessidades dos outros. A pandemia também reforçou uma reflexão profunda sobre a necessidade de acelerar a digitalização no Brasil. Conforme a situação evoluiu, as pessoas perceberam que a internet, que já era importante para a operação das empresas, se transformou em ferramenta fundamental para dar continuidade aos negócios. Os brasileiros têm uma vocação natural para o ambiente digital, mas até agora sempre usaram muito a tecnologia, basicamente, para a comunicação. Para o progresso do país nos próximos anos, é importante ajudar nossa população a desenvolver habilidades digitais. Isso pode permitir que as pessoas estejam mais preparadas no futuro.

 (Arte/VOCÊ S/A)

Qual é seu conselho para quem quer trabalhar no Google?

É ter metas com propósito e saber colaborar. No Google, todo mundo precisa entender que não há respostas prontas e que deve haver uma construção conjunta. É muito comum eu dar uma ideia e, dessa ideia, nascerem outras que são muito melhores. Também é importante respeitar a diversidade. E aqui não estou falando só em diversidade de gênero e de raça, mas de opiniões. É preciso conseguir lidar com o contraditório e com opiniões que sejam contrárias às suas.

Fabio Coelho, presidente do Google no Brasil, está liderando a empresa em um dos momentos mais delicados da história do planeta: a crise do novo coronavírus. (Bruno Mooca/VOCÊ S/A)

Matéria originalmente publicada na Revista VOCÊ S/A, edição 265, em 19 de junho de 2020. 

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