Objetivo de Paula Oliveira é facilitar o caminho para os negros conseguirem se recolocar no mercado de trabalho na região de Sorocaba (SP).

Paula Oliveira, profissional de recursos humanos, criou o grupo para auxiliar também empreendedores negros — Foto: Arquivo pessoal

Paula Oliveira, profissional de recursos humanos, criou o grupo para auxiliar também empreendedores negros — Foto: Arquivo pessoal

Ao sentir que faltava mais representatividade nas empresas, a profissional de recursos humanos Paula Oliveira decidiu fazer algo para ajudar. Ao G1, ela contou que pensou em tentar facilitar um pouco mais a vida de quem relata que sofre dificuldades para conseguir emprego e se colocar no mercado: os negros.

Para isso, criou um grupo em uma rede social que divulga vagas de empregos exclusivamente para negros, o EmPretos – Rede de Profissionais Negros do Brasil. Com quase 1,5 mil inscritos, o grupo começou humilde, apenas com vagas para a região de Sorocaba (SP), mas o sonho da criadora é expandir o auxílio para todo o território nacional.

“Senti falta da representatividade de negros, então comecei a estudar bastante sobre isso. Em outubro de 2019, criei um grupo no Facebook por ser de mais fácil acesso”, conta Paula.

Como trabalha em RH, a profissional fica sabendo de vagas abertas em muitas empresas da região. Porém, chegou à conclusão de que não precisava divulgá-las para todo mundo, já que poderia mandar para um grupo específico.

Foi então que ela decidiu “privilegiar” os negros e não somente com vagas, mas também através de uma forma de assessoria para que as pessoas possam se recolocar no mercado de trabalho e até disputar altos cargos nas empresas.

“Alguns amigos colocam vagas lá também, além de voluntários. Fugimos um pouco do princípio de divulgar apenas vagas de empregos, porque queremos ajudar também os empreendedores pretos. Algumas empresas estão nos buscando para fazer parcerias, então eu indico pessoas até para vagas específicas”, diz.

Paula Oliveira, de Sorocaba (SP), criou o grupo EmPretos para facilitar a entrada dos negros no mercado de trabalho — Foto: Arquivo pessoal

Paula Oliveira, de Sorocaba (SP), criou o grupo EmPretos para facilitar a entrada dos negros no mercado de trabalho — Foto: Arquivo pessoal

Segundo uma pesquisa do Instituto Ethos com as 500 empresas de maior faturamento do Brasil, os negros representam de 57% a 58% dos aprendizes. Porém, em cargos de gerência, eles são apenas 6,3%. No quadro executivo, somente 4,7% são negros (veja abaixo).

Para Paula, esses indicativos são provas de que, geralmente, a população negra precisa de um auxílio. Incomodada com situações que ela mesma viveu ao entrevistar pessoas negras para cargos dentro da empresa em que trabalha, a profissional percebeu que teria dificuldades para equilibrar um pouco mais a gangorra desproporcional que é o mercado de trabalho.

“Eu parei para pensar que, se eu não fizesse alguma coisa, dificilmente as coisas iriam mudar. Mas as pessoas têm dificuldade de falar sobre isso. Eu perguntava para amigos se conheciam pessoas negras para recomendar para vagas e, na maioria das vezes, as pessoas não tinham alguém para indicar que não fosse parente. Então pensei: por que não temos?”, questiona.

Distribuição do pessoal por cargo, de acordo com cor ou raça — Foto: Arte G1

Distribuição do pessoal por cargo, de acordo com cor ou raça — Foto: Arte G1

Facilitador

Luís Fernando da Silva Almeida, de 21 anos, estava em busca de emprego desde abril. A empresa em que ele trabalhava desde o início de 2020 acabou não suportando o período de crise da pandemia do coronavírus e acabou cortando gastos.

No início, sabendo da situação que a maioria das empresas estava passando, Luís achou por bem não procurar outro emprego, mas, como percebeu que a situação estava longe de melhorar, começou a correr atrás.

“Um amigo do Facebook me convidou para participar do EmPretos. Eu vi que mandavam várias vagas lá, principalmente na minha área, e fiquei mandando currículos para essas vagas. Depois disso, uma das empresas me chamou, fizemos uma entrevista e, cerca de 40 minutos depois, eu estava empregado”, conta.

Luís Fernando da Silva Almeida se tornou estagiário de uma empresa de consignados graças ao grupo EmPretos — Foto: Arquivo pessoal

Luís Fernando da Silva Almeida se tornou estagiário de uma empresa de consignados graças ao grupo EmPretos — Foto: Arquivo pessoal

O novo estagiário de uma empresa de empréstimos consignados acredita que nunca teve problema em encontrar emprego por ser “preto de pele clara” (como se autodeclara), mas enxerga a necessidade da existência do grupo, já que diz perceber a desvantagem do negro em processos seletivos.

“Conseguimos ver com muita facilidade a desvantagem, por assim dizer, que o negro tem, antes mesmo de começar um processo seletivo. Conseguimos enxergar também que, apesar de maioria no Brasil, os negros não estão em todos os cargos. Além disso, existe o fato de sermos a maior porcentagem em desempregados.”

Segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação por cor ou raça no Brasil em 2018 mostra a diferença de 4,5% entre o total de pessoas que se declaram preta ou parda dos que se declaram brancos. Veja:Taxa de desocupação por cor ou raça2018%9,59,51414BrancaPreta ou parda02,557,51012,515Branca
TOTAL 9,5
Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2018

Dos dois lados

Para Paula, isso não só destaca o preconceito, como também expõe a realidade do país na questão do recrutamento das empresas. Ela contou ao G1 que já vivenciou experiências dos dois lados.

“Eu comecei a trabalhar muito cedo, mas tive dificuldade para saber o que eu queria fazer. Sempre quis ser delegada ou estar na parte jurídica de alguma forma, mas nunca tive uma referência próxima. Acabei cursando direito, fiz estágio e acabei não gostando do curso. Tranquei e fiquei uns dois anos parada, porque não sabia o que queria fazer”, lembra.

A vida da jovem mudou no dia em que o então gestor pediu para ela ficar responsável por entrevistar candidatos para um cargo na empresa em que trabalhava. Foi então que Paula decidiu “descobrir formas de cativar as pessoas para quererem trabalhar no mesmo lugar” que ela, descobrindo o setor de recursos humanos.

“Quando fui entrar na empresa que estou hoje, na minha sala de espera só tinha eu de negra. Acabei entrando como aprendiz, fui efetivada e continuei tendo um crescimento exponencial aqui dentro”, comenta.

Paula relata também que, estando do outro lado ao buscar os candidatos para vagas em sua empresa, já passou por situações constrangedoras.

“Algumas pessoas já me questionaram: você veio para me buscar? Você que vai me entrevistar?”, lembra.

Ainda assim, ela não perde a esperança de dias melhores para os negros e diz que até chega a torcer para que a pessoa se saia bem na entrevista diante dela. Para os que não conseguem, oferece ajuda através do EmPretos.

“A maioria das pessoas que vou buscar na portaria para vagas são brancas. Quando a pessoa é negra, é até diferente, rola uma conexão. Mas sinto que vai melhorar, as empresas estão me procurando também para ter mais representatividade, esse é o caminho”, completa.

Fonte: G1

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