Inovação se tornou a grande questão para as grandes empresas. Em um momento em que startups disruptivas podem afetar modelos de negócios de companhias consolidadas (e colocar em risco sua lucratividade e participação de mercado), ficar parado não é uma opção. Para Alex Comninos, CEO da Founders Intelligence para a América Latina, muitas vezes é preciso tomar decisões radicais. O problema é que a maior parte dos programas de inovação corporativos geram apenas ganhos incrementais de eficiência. Qual seria então a melhor forma de buscar a inovação?

Para tentar responder essa pergunta, a Founders Intelligence, criada em 2013, desenvolveu uma metodologia específica. Diferente dos já tradicionais programas de inovação aberta, em que as empresas expõem desafios às startups e pedem soluções em troca de parcerias e investimento, a Founders Intelligence prefere olhar mais à frente.

A ideia é criar uma visão de futuro, a partir da conversa com startups, para o setor em que a empresa atua, criando novas frentes de atuação e de receita. “Em vez de focar no conhecimento e nos desafios que já existem, provocamos os líderes com as ideias de pessoas que estão virando aquela indústria de baixo para cima”, explica Alex. O executivo chegou ao Brasil em 2017 para montar as operações da Founders Intelligence por aqui. Nessa entrevista, ele explica um pouco mais sobre o modelo da consultoria e expõe sua visão sobre o empreendedorismo brasileiro.

Você está no Brasil desde 2017. Na sua visão, o que mudou nesse tempo?
As conversas que tenho com meus clientes mudaram. É uma curva de aprendizado. No começo, as empresas criavam programas de aceleração e buscavam soluções prontas. Hoje, estamos vendo questões diferentes, mais focadas em como serão os negócios no futuro. Para mim, essa é uma grande mudança. Em termos de ecossistema, tivemos recentemente a entrada do SoftBank e outros investidores. Há mais capital e, por isso, os novos modelos de negócio estão crescendo mais rapidamente. O ecossistema como um todo está mais forte. Há dois ou três anos, os investimentos estavam focados em estágios mais iniciais, de capital semente até a série A. Mas os empreendedores precisam de séries B, C, D para continuar expandindo seus negócios. A entrada do SoftBank também estimula os investimentos nesses estágios mais iniciais.

Qual sua avaliação sobre o ecossistema brasileiro de empreendedorismo hoje?
Acho que os consumidores brasileiros estão prontos para serviços e produtos digitais, e as companhias estrangeiras estão percebendo isso. É o caso da empresa de patinetes elétricos Lime, que entrou no Brasil depois de a Grow já estar no mercado local. Acho que esse movimento, de empresas estrangeiras entrando no mercado brasileiro, vai continuar a crescer.

Muitas corporações criam programas de aceleração ou incubação para se aproximar de startups. É uma boa estratégia?
Depende. Se o objetivo é expandir o negócio e obter resultados financeiros, esse pode não ser o melhor caminho. Mas, se a estratégia é incentivar uma mudança de cultura, ou trabalhar para que a marca seja vista como mais digital e mais inovadora, que são coisas muito valiosas, pode valer a pena, porque o investimento nesses programas é relativamente pequeno. Programas de inovação aberta são bons e são úteis, mas é preciso pensar no objetivo. Se você quer fortalecer o core business e ganhar eficiência, eles podem ser úteis. Agora, se o objetivo da empresa é se reinventar, talvez não funcione tão bem.

Qual a diferença entre o modelo da Founders Intelligence e outros programas de inovação aberta?
No momento, a maioria das empresas estão focadas em definir os desafios e encontrar startups que possam resolvê-los. O problema com essa abordagem é que você encontra soluções para problemas que a companhia já conhece. Dessa forma, torna seus processos 10% mais eficientes, mas esse é apenas um ganho incremental. Acreditamos que uma transformação digital real deve ser maior, estratégica.

E como funciona o trabalho de vocês?
Nós trabalhamos com o CEO e com a liderança da empresa, ajudando a criar uma visão do que vai acontecer no setor em que a empresa atua. Fazemos isso conversando com as pessoas que estão inovando naquele setor. Ou seja, vamos falar diretamente com os empreendedores. Enquanto uma consultoria tradicional passaria 50 horas conversando com os funcionários da empresa, nosso objetivo é passar essas 50 horas conversando com empreendedores.

Estamos falando de qual horizonte de tempo?
Olhamos para três questões. A primeira é fortalecer o core business, o que é ótimo porque tem efeitos mais imediatos. A segunda é expandir o core business, criando novas fontes de receita. E o terceiro é reinventá-lo. No último caso, estamos olhando três anos à frente, porque é muito difícil fazer planos para prazos mais longos.

E como vocês desenham essa visão?
Os temas inovação, startup e tecnologia estão nas manchetes, e há muito ruído. Quando falamos com nossos clientes pela primeira vez, perguntamos o que eles estão querendo alcançar, e por que nos procuraram. Muitas vezes, eles não sabem como responder a essas perguntas. Então, o primeiro passo é entender suas motivações. Pode ser defender o core business e conseguir margens mais agressivas, ou levar o negócio para algum espaço adjacente ao core business, porque o modelo está sofrendo. O objetivo da empresa pode ser algo amplo, como aumentar o contato com o consumidor final, ou expandir a presença online. A partir dessa visão, vamos atrás de startups que possam pensar em meios de realizar aquilo.

Quais são os maiores erros das empresas ao lidar com startups?
O mais importante na ideia de inovação aberta é buscar as ideias que estão fora da empresa. Hoje, pelo modelo tradicional, a companhia faz uma parceria e investe em uma startup. Quando uma parceria dá muito certo, a empresa adquire a startup. Nós queremos buscar um modelo de parceria que seja benéfico para os dois lados. E não necessariamente só com startups – podem ser duas grandes empresas fechando uma parceria.

Fonte: Época

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