Observando-se o ranking que identifica os assuntos mais citados nas diferentes mídias, certamente a pandemia do novo Coronavírus e os tempos pós-COVID-19 são os de maior repercussão. Logo a seguir, a questão ambiental, sem dúvida, está entre os temas prioritários.

O avanço da destruição e das queimadas da floresta amazônica está conseguindo reunir os esforços de diversos atores, pessoas físicas e instituições de diferentes matizes, na defesa do meio ambiente.

É assustador, realmente, constatar que uma área equivalente ao dobro da cidade de São Paulo, foi destruída em apenas um semestre, o primeiro deste complicado ano de 2020.

Nada tem escapado à sanha dos destruidores da floresta: propriedades privadas, terras públicas e até Unidades de Conservação. O Amazonas contribuiu com a cota de 539 km2 nessa obra de devastação.

E se desmata para quê? Para ampliar a fronteira do agronegócio? Evidentemente que, sendo verdade, o desmatamento indiscriminado se torna um tiro no pé!

Tempos pós-COVID-19: futuras retaliações

Utilizando argumentos indiscutíveis, por um lado, e bastante questionáveis, por outro, a crescente reação internacional certamente trará retaliações comerciais aos empreendedores e às populações dessas regiões e de outras, como já vem acontecendo.

Além do impacto ambiental, podem ser prejudicadas atividades econômicas que não produzem mal algum ao meio ambiente, mas que, por estarem em regiões próximas – ou não -, pagarão o preço dos desajustes, registremos assim, das decisões de políticas referentes ao tema, que dão margem às reações mencionadas.

Dois documentos recentes, tratando do meio ambiente e da Amazônia, chamaram a atenção. Elaborados por profissionais influentes como Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Londres e Washington, e por ex-ministros e ex-Presidentes do Banco Central brasileiro, os conteúdos aparentam ser preocupantes sob determinados aspectos, mas podem favorecer a região amazônica, por outro lado.

Creio que quem está preocupado com os destinos do desenvolvimento da região, deveria ficar atento a essas iniciativas porque os documentos mencionados foram elaborados por formadores de opinião, influentes internacionalmente e muito bem informados.

Política externa para o meio ambiente

O texto do embaixador Barbosa, Presidente do IRICE – Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, publicado no jornal O Estado de São Paulo em 14 de Julho de 2020, tece comentários sobre uma política externa para o meio ambiente, mencionando o impacto do clima e a imagem negativa do Brasil nesses temas, posicionando a Amazônia como foco.

Propõe o embaixador Barbosa a tomada de atitudes proativas por parte do governo brasileiro, voltadas ao resgate da credibilidade externa e do restabelecimento da confiança nas políticas domésticas na Amazônia.

Na visão do embaixador Barbosa, uma nova atitude para a preservação da floresta amazônica seria exposta no exterior, fortalecendo temas como a proteção indígena, o uso de energia limpa, a redução de gás carbônico e a promoção de investimentos sustentáveis.

O documento é mais amplo e trata de assuntos que englobam o clima, a energia de baixo carbono e tarifas internacionais, por exemplo.

Com preocupação similar, e após manifestação de investidores estrangeiros e empresários brasileiros, 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central do Brasil, divulgaram na terça-feira, dia 14 de julho de 2020, uma carta denominada Uma Convergência Necessária: Por Uma Economia de Baixo Carbono, propondo que, para superar a crise, é necessário “convergirmos em torno de uma agenda que nos possibilite retomar as atividades econômicas, endereçar os problemas sociais e, simultaneamente, construir uma economia mais resiliente ao lidar com os riscos climáticos e suas implicações para o Brasil”.

Economia de baixo carbono

Tudo parece convergir no sentido de que prevaleçam investimentos voltados para a economia de baixo carbono.

Dadas as suas características geográficas, essa pode ser uma otima oportunidade para o Brasil e para a Amazônia. Mas pode ser, também, um imenso risco para o desenvolvimento da região, em especial para o Amazonas, se alguns cuidados não forem observados.

As intermináveis discussões na busca de um modelo alternativo para o desenvolvimento do Amazonas, que coadune redução de incentivos fiscais e preservação ambiental, no entanto, não tem passado de retórica.

Com os riscos à sustentabilidade do Polo Industrial de Manaus e a inviabilidade da expansão do agronegócio na região, parece consenso que os caminhos para o desenvolvimento apontam para a bioeconomia.

Mas, como viabilizar essa atividade cara e complexa, mesmo em uma região de biodiversidade notoriamente abundante, considerando-se a quase inexistência de infraestrutura, não poucos entraves ambientais e escassos investimentos em ciência e tecnologia (C&T) perante a grandiosidade da Amazônia?

Tempos pós-COVID-19: necessidade de ações concretas

O fato é que a pressão está aumentando sem precedentes sobre a região amazônica, e os impactos para reduzir a participação dos atores locais no planejamento do seu desenvolvimento, parecem crescer paulatina e subliminarmente.

O estágio de dificuldades em que se encontram muitos dos governos estaduais, principalmente por conta da pandemia, tem fragilizado suas capacidades de ação. Especialmente no caso do Amazonas, imprensado entre duas locomotivas que estão vindo de encontro à sua sustentação econômica –  a reforma tributária e a pressão pelo desmatamento zero.

A conquista de aliados para superar a fase pandêmica e reencontrar a retomada do desenvolvimento, sob novos cenários, torna-se, portanto, estratégica, principalmente nos tempos pós-Covid-19.

Os debates se sucedem por um motivo compreensível: a preservação da floresta. Mas não vejo sentido no aprofundamento desse debate, sem a inclusão de propostas que levem em consideração ações concretas para o desenvolvimento da região.

Niomar Pimenta
Graduado em Engenharia de Telecomunicações pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (1978), possui mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal da Paraíba (1992) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005). Colaborador da Fucapi, na área de Educação, por 33 anos e professor do curso de Engenharia Elétrica da Ufam, por 37 anos. Atualmente, atua no projeto Academy da FPF Tech e do INDT.

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